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Manuel Menezes; "O incentivo à leitura deve começar em casa"

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Manuel Menezes, natural de Alvite, é licenciado e mestre em Serviço Social (ISBB, ISSSL), doutorado em Ciências da Comunicação pela Universidade Nova de Lisboa (2007). Atualmente, é Professor Auxiliar no ISMT (Coimbra) onde leciona nas áreas de Serviço Social e Comunicação; como Professor Auxiliar convidado tem vindo, igualmente, a colaborar na Universidade Católica Portuguesa – CRB. É investigador do Centro de Estudos de Comunicação e Linguagens (CECL). Autor de diversos ensaios, em distintas áreas das ciências sociais. Das suas publicações destacam-se: “As Práticas de Cidadania no Poder Local Comprometido com a Comunidade” (2001); “Serviço Social Autárquico e Cidadania: A Experiência da Região Centro” (2002); “Riscos e Protecção Social nos Alvores da Europa Moderna” (2009); “Modernidade Riscos e Incertezas” (2010); “Os Fiados nas Tabernas”, “Espelhos das Realidades Aldeãs: Alvite e Rio de Onor” (2011) e “Olhares de Aquilino sobre Alvite e os Alvitanos” (2013).

 

Livros & Leituras  – Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?

Manuel Menezes – A escrita consubstancia-se como o resultado de um processo progressivo de inquietações em relação ao meu meio envolvente e, no presente, ajuda-me a refletir sobre o modo como nós humanos nos relacionamos uns com os outros e, nessa relação, podemos construir um mundo melhor.

L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente? 

MM – Não obstante o imaginário ser imprescindível para criar algo, no meu caso predomina o trabalho de investigação tanto histórica como contemporânea, ou seja, o que escrevo toma por base, essencialmente, um estudo cuidado das mediações que perpassam a experiência.

L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?

MM – Penso que sim, essa comunidade tem vindo a crescer e é uma realidade cada vez mais visível num mundo altamente globalizado, onde as trocas de experiências, as partilhas da escrita, independentemente do país de origem, têm vindo a ser facilitadas por via dos meios de comunicação de massa.

L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?

MM – Se apreendermos a literatura como o resultado da capacidade inventiva e expressiva do humano, traduzida em imagens estéticas, por um lado, e como um elemento essencial para a compreensão desenvolvida pelo homem no mundo, por outro, teremos necessariamente de concordar que a congregação das distintas influências histórico-culturais dos seus autores irá contribuir positivamente para o aumento da coesão do espaço da Lusofonia.

L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldades encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?

MM – Penso que nos últimos anos, com o surgimento de novas editoras, os condicionalismos têm vindo a diminuir para os novos autores como é o meu caso, pois nos últimos anos tenho vindo a publicar com alguma regularidade.

L&L – Que estratégias de incentivo à leitura gostaria de ver implementadas?

MM – O incentivo à leitura deve começar em casa, mas, por razões várias, nem sempre esse trabalho é fácil e/ou bem-sucedido. Neste sentido, em complementaridade com a esfera familiar, deve, a escola, pensar e desenvolver modelos pedagógicos, assentes em oficinas direcionadas para uma vertente mais prática, com o intuito de procurar cativar os alunos desde a mais tenra idade.

L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?

MM – Pelo contrário, as mesmas poderão aumentar o desejo desses encontros presenciais que, em última instância, poderão ser facilitados se os dinamizadores dos mesmos se souberem socorrer das novas plataformas utilizadas pelo público em geral.

L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?

MM – Utilizo os dois recursos, mas a preferência recai no suporte de papel, dadas as experiências que o mesmo permite ao ser manuseado. Apesar de a morte do livro já ter sido anunciada por diversas vezes, sou de opinião de que o seu ocaso ainda se encontra longe.

L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?

MM – Poderei aconselhar o último, publicado no presente ano sob a chancela das Edições Esgotas: “Olhares de Aquilino sobre Alvite e os Alvitanos”. A escolha poderia recair sobre outros, mas opto por este, pelo simples fato de ser um livro escrito numa linguagem leve e cativante onde, fazendo uma viagem pela obra aquiliniana, é visível um pouco da minha geografia sentimental.

L&L – Que projetos literários tem para o futuro?

MM – Ainda que de forma rudimentar e a carecer de desenvolvimento significativo, tenho em mente gizar algo sobre duas temáticas, designadamente sobre a (i) história dos seguros e das probabilidades e a (ii) modernidade mediada pelo espectro da velocidade.

 


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Rosa Maria Ribeiro: "Escrevo porque as palavras se atropelam dentro de mim e preciso de lhes dar caminho"

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Rosa Maria Ribeiro nasceu em Março de 1959 no distrito de Viseu. Vive em Cantanhede, onde reparte os estudos entre esta cidade e Coimbra. Foi no concelho de Cantanhede que iniciou a sua vida profissional, sempre ligada ao Ensino Especial. Após a especialização nesta área, passou a exercer as suas funções docentes no concelho da Figueira da Foz, onde se mantém. Dinamizou alguns projetos de índole cultural, ligados à escrita, fotografia, rádio e teatro, no concelho de Montemor-o-Velho, onde também residiu. Das várias atividades em que participou, destacam-se: a coautoria, com textos, na exposição de texto e imagem subordinada ao tema “Cumplicidades” realizada no Centro de Artes e Espetáculos da Figueira da Foz em 2007, a exposição de fotografia sobre o mar, em Abril de 2008, a exposição “Das (p)Artes”, em 2010, entre outras exposições coletivas de fotografia. A nível de publicações, colaborou com fotografia e texto na Revista DP Arte Fotográfica, na “Antologia da Moderna Poética Portuguesa” da editora Seda Publicações, em março de 2013 e publicou artigos com fotos também da sua autoria num jornal regional. Em Abril de 2008 vê editado o livro “Quando um tudo-nada chega” da Editorial 100 e em 2010 edita “Deixa que te diga” da Editora Alfarroba. Mantém ativos vários blogues, um deles, relacionado com a sua atividade profissional e os outros relacionados com a escrita e a fotografia. A saber: http://mariamar-vooemmim.blogspot.pt/ de onde saíram os dois primeiros livros e http://www.quiseradizerte.blogspot.pt/ o blogue mais recente ligado à escrita, com vínculo à fotografia.

 

Livros & Leituras  – Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?

Rosa Maria Ribeiro – Curiosamente, através da fotografia e das legendas, porque não me bastavam as imagens captadas. Sabia das histórias para além daquilo que ficava congelado. E adivinhava outras, sempre mais para onde a vista não alcançava. Acrescentava assim relatos onde não os havia e palavras onde o silêncio as pedia. Porque sempre fui feita de perguntas e a escrita era a forma de no esconde-esconde procurar as respostas, mesmo que as perguntas fossem crescendo ainda mais. Essa era a forma certa de viver. O objetivo primeiro de acordar. Porque sabia que o dia me traria novas coisas e valeria a pena. Pelo que perguntaria e acharia. Escrevendo, organizando as palavras que se atropelavam quando olhava à minha volta e sentia dos outros o que em mim ficava. Porque mesmo parecendo ausente em tudo me via. Desde sempre. Recolhendo na memória e nos sentidos tudo quanto agora ponho no teclado desbravando códigos, sempre que a emoção mo pede. E pede-mo a toda a hora. Por todos os motivos. Porque sou vida e sou gente nesta terra.

 

L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente? 

RMR – Escrevo por impulso. Escrevo porque as palavras se atropelam dentro de mim e preciso de lhes dar caminho. De as por em carreirinha e de lhes dar voz. Inteligível. Que alguém as ouça. Que eu as perceba e faça delas o verbo. O motor funcional que as torna visíveis e uteis. Armas, dirão alguns. Instrumentos, é quanto basta, digo eu. Sou emoção. E as minhas palavras o retrato do que sinto.

L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?

RMR – Não gosto de fronteiras nem da palava nacionalidade no que diz respeito à escrita. Embora ela pareça, dizem, ter um jeito diferente quanto à forma ou sentir de acordo com a pessoa de quem vier. Mas o resto não importa. A palavra, tenha a sonoridade que tiver, funciona transmitindo mensagens em que língua for. Unindo-nos, afastando-nos, tornando-nos iguais ou diferentes. Porque o somos. Mesmo se usamos os mesmos códigos, nos mesmos espaços. Mesmo juntos, seremos vozes diferentes na mesma língua a expressarmo-nos com palavras novas e diferentes. E mais ricos nos tornamos. Se for preciso, distanciarmo-nos, para que essa diferença se entenda e não se perca na memória do que fomos. Não deixemos de o fazer. E tenhamos orgulho de o mostrarmos, sem fronteiras. A todos, sem sermos desta ou daquela comunidade. Porque, afinal, somos todos desta terra imensa e única, onde vivemos e falamos todas as línguas. Não fossemos nós um povo espalhado por onde nunca se sonhou.

L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?

RMR – Gostaria de dizer que a escrita na sua forma mais alagada é uma excelente forma de congregação. Não seja ela forma física da voz feita palavra. Dito isto que mais há a acrescentar?

L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldades encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?

RMR – É sempre difícil editar e divulgar um trabalho quando não se é conhecido. As editoras não se arriscam e aos escritores fica todo o trabalho e esforço, quer de promoção quer de investimento. Neste momento, as editoras não fazem sequer um trabalho de “apuramento de qualidade”. Editam o livro de quem paga, não o livro que tem qualidade e o universo de livros fica infetado de má qualidade deixando de fora escritores (que não investem do seu próprio bolso) porque não há a aposta devida.

L&L – Que estratégias de incentivo à leitura gostaria de ver implementadas?

RMR – Estão já a ser implementadas estratégias nas escolas e nas bibliotecas em todo o país. É na redução do custo dos livros que se deve apostar agora.

 

L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?

RMR – São duas coisas diferentes que podem coexistir. Uma coisa pode incentivar a outra, promovendo-a.

L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?

RMR – O livro em suporte de papel é ainda o melhor objeto a ter em mãos. Mesmo que se use o suporte digital será esse o futuro. Pode servir para leituras ocasionais, claro. Mas uma biblioteca com livros e com cheiro a livros é insubstituível.

L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?

RMR – O próximo. Porque já me despedi dos que escrevi há muito tempo. Já nem os reconheço. Curiosamente, quando pego neles, admiro-me de os ter escrito. Pergunto-me mesmo se fui eu que estive por trás deles. Agora a sério, vão até ao último: “Deixa que te diga” da editora Alfarroba.

L&L – Que projetos literários tem para o futuro?

RMR – Projetos, não tenho. A verdade é que não paro de escrever. Agora se quisesse editar um livro teria dificuldade em escolher entre muitíssimo material para o fazer.


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Mário Carvalho: "A literatura poderá ser uma arma de união entre os povos"

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Mário Carvalho tem 65 anos e é Licenciado em História pela Universidade de Coimbra. Colaborou, na juventude, nos jornais regionais: "O Caminho" e o "Jornal do Centro". Depois de muitos anos, em que se dedicou totalmente ao trabalho, voltou a ter tempo para se dedicar à escrita. Em 2013 venceu o Prémio Literário João Gaspar Simões, instituído pelo Município da Figueira da Foz. Tem, neste momento, vários projetos literários nos quais está a trabalhar.

 

Livros & Leituras  – Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?

Mário Carvalho – A escrita sempre foi uma companheira silenciosa na minha vida. Hoje entendi dar-lhe voz.

 

L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente? 

MC – Trabalho apurado... Bem tento. Inspiração? Gosto de pensar que sim.

L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?

MC – Comunidade? Não sei responder. Tenho ideia que somos mais capelas do que catedrais.

L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?

MC – A literatura poderá ser uma arma de união entre os povos que partilham a mesma língua. Poucos são os que vencem as barreiras, alfândegas, trincheiras. No meu caso, estou a pensar concorrer a alguns concursos literários no Brasil e tenho constatado que muitos são fechados a quem não tenha o B.I. azul e verde.

L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldades encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?

MC – A minha experiência é limitada. Concorri e ganhei este ano o “Prémio Literário João Gaspar Simões” com a obra “ O Primo Aprendiz – Diário de um Carbonário”. Aguardo indicações da Câmara Municipal da Figueira da Foz que está a consultar editoras para a publicação.

L&L – Que estratégias de incentivo à leitura gostaria de ver implementadas?

MC – A leitura é uma ferramenta essencial para moldar um povo. Em Portugal, o hábito da leitura não é comum e muitas vezes vai pelos piores caminhos. No meu caso ainda foi na escola primária que ganhei o prazer de ler e de me imaginar nos caminhos que o livro oferecia. Penso que tem de ser por esse lado.

 

L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?

MC – As novas tecnologias, podem é unir, divulgar, facilitar.

L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?

MC – O papel (ou similar) vai sobreviver. Não consigo imaginar um mundo sem livros, sem o gesto silencioso, curioso do virar da folha.

L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?

MC – Esperar pelo “Primo Aprendiz – Diário de um Carbonário”. Porque, segundo o júri, constituído por António Torrado, representante da Sociedade Portuguesa de Autores (S.P.A), Luís Machado, representante da Associação Portuguesa de Escritores (A.P.E.) e o vereador da Cultura, António Tavares, em representação do Município da Figueira da Foz, "a excelente qualidade da narrativa, a estrutura adequada do romance, o interesse da temática, que tem sido pouco explorada para efeitos romanescos, a escrita cuidada e escorreita e o trabalho de investigação subjacente à obra".

L&L – Que projetos literários tem para o futuro?

MC – Tenho escrito e vou continuar a escrever contos. Neste momento, tenho, entre mãos, um romance histórico que tem como cenário o Séc. XVIII. Escrita que obriga a longas e demoradas buscas, vamos ver se leva os três anos do “Aprendiz”.

 


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Natércia Simões: "Não sei bem se existe verdadeiramente uma comunidade de escritores lusófonos"

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Natércia Simões nasceu a 25 de outubro de 1977 na cidade de Coimbra. Viveu, até aos treze anos no concelho de Soure, tendo-se mudado, dois anos mais tarde, para o concelho da Figueira da Foz. É licenciada em Comunicação pelo Instituto Superior de Ciências da Informação e Administração de Aveiro, vive e trabalha no concelho da Figueira da Foz. Em 2012, participou no 1º Encontro de Jovens Criadores da Figueira da Foz, na categoria de poesia, com dois poemas, bem como na exposição coletiva decorrente do evento, a qual esteve patente no Museu Municipal Santos Rocha. Em 2013, concorreu ao III Concurso “Poesia na Biblioteca”, promovido pela Câmara Municipal de Condeixa-a-Nova, obtendo o 2º Prémio. “Pensamentos Dispersos” é o título do seu primeiro livro.

Livros & Leituras  – Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?

Natércia Simões – A escrita entrou muito cedo na minha vida, primeiro como leitora. Aos dez, onze anos comecei a escrever os meus primeiros poemas por curiosidade, mas foi aos treze, quando a minha mãe faleceu, que se tornou verdadeiramente importante, para não dizer uma necessidade. Era no papel que libertava o que sentia e pensava, que carpia a minha dor. Com o passar dos anos, escrever tornou-se um hábito e, hoje, passadas mais de duas décadas, é através da escrita que me “dispo” e escancaro tudo o que me vai no coração e na alma. 

L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente?  

NS – Escrevo por inspiração mas acima de tudo por necessidade. Desde a adolescência, e muito devido ao facto de ter ficado órfã de mãe nesse período, a escrita tomou lugar de destaque no meu dia-a-dia. Confesso que embora 99% do que escrevo seja por inspiração, com o passar do tempo e com o anseio de editar o que escrevia, passei a olhar o ato de escrever de uma forma mais apurada, embora todos os meus poemas sejam criados no momento, escritos de um só fôlego, sem preocupações estéticas conscientes.

L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?

NS – Não sei bem se existe verdadeiramente uma comunidade de escritores lusófonos. A realidade é que não vemos com a frequência e quantidade desejável, obras de autores lusófonos – à exceção dos portugueses e brasileiros – nos escaparates dos grandes “supermercados” do livro. A realidade é que a comunidade existente é a da elite, dos autores reconhecidos, a quem é dada visibilidade no meio literário.

 

L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?

NS – A Língua Portuguesa é o cimento que, na diversidade do espaço lusófono, nos une a todos e nos auxilia na perpetuação do passado, na construção do presente e na projeção do futuro. A Língua Portuguesa é a pátria comum do espaço lusófono, que vai para além das fronteiras, da geografia, dos hábitos e costumes de cada povo.

L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldade encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?

NS – Há cerca de meia década para cá a edição tornou-se facilmente concretizável, pois surgiram no mercado novas editoras cujo plano editorial é dar visibilidade a novos escritores, dar voz a quem não a encontra junto dos grandes grupos editorais, de difícil acesso. Receio, contudo, que a ânsia do lucro, relegue a qualidade literária da obra para segundo plano e transforme o livro num objeto e o escritor numa pessoa banal. Acima de tudo, há que ter respeito pelo “objeto” livro mas também pelo leitor, que procura a cada leitura uma viagem especial nas palavras e pelas palavras.

L&L – Que estratégias de incentivo à leitura gostaria de ver implementadas?

NS – Há já estratégias interessantes a serem desenvolvidas como o Plano Nacional de Leitura, a nível nacional, que promove entre outras iniciativas, o Concurso Nacional de Leitura, o qual, aos poucos, tem sido replicado em vários municípios, como Ourém e a Figueira e que abrange quase todos os níveis do ensino obrigatório. Mas as estratégias do PNL não são suficientes. Se o preço dos livros fosse mais acessível, talvez a leitura fosse mais valorizada, talvez o livro fosse encarado como aquilo que verdadeiramente é, o melhor lugar do mundo!

L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?

NS – O uso das novas tecnologias veio alterar hábitos, contudo, como em quase todas as situações, primeiro há uma espécie de “febre” que com o tempo tende a passar. Não nego a mais-valia das novas tecnologias, nomeadamente, as potencialidade de promoção e divulgação das redes sociais, mas acredito, por experiência profissional, que os leitores, até mesmo os que utilizam o livro digital, sempre que têm a possibilidade de desfrutar da presença dos seus escritores de eleição, não perdem a oportunidade de estabelecer esse contacto mais direto e íntimo.  Um exemplo de sucesso é o projeto Quintas de Leitura da Biblioteca Municipal Pedro Fernandes Tomás da Figueira da Foz que desde 2009 já promoveu cerca de quatro dezenas de encontros com escritores nacionais, todos com bastante afluência de público.

L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?

NS – Eu sou fã do livro em papel, adoro o cheiro que exala, o virar de página, o sacudir do pó, se necessário. Gosto da vida que há num livro de papel. Julgo que o surgimento dos livros digitais veio abalar bastante o mercado das edições impressas, muitos chegaram a dar como certa a morte do livro em papel, no entanto, a coexistência entre ambos os suportes é perfeitamente possível.

L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?

NS – Obviamente, porque é o primeiro livro que tenho editado, aconselho “Pensamentos Dispersos”. Um livro sui generis, que conjuga a prosa e o verso numa harmonia perfeita entre a consciência amargurada da vida e a beleza estética da escrita. “Pensamentos Dispersos” é o retrato fiel de tudo o que acontece no mundo interior de uma alma inquieta, é o completo desnudar da alma.

L&L – Que projetos literários tem para o futuro?

NS – Para já, pretendo que o meu primeiro livro encontre o seu espaço, se transforme num organismo vivo, através do olhar / leitura dos outros, mas, acima de tudo, que as palavras nele contidas respirem, pois estiveram muito tempo engavetadas. A médio prazo pretendo editar um segundo livro de poesia, para o qual já tenho material produzido, contudo, não quero ficar apenas por este género literário, gostava de me aventurar noutros géneros. A escrita para crianças está no horizonte, a vontade de me aventurar neste género surgiu com a maternidade. A nível profissional, já concretizei a vontade, através da criação do primeiro livro de histórias da mascote infantil do Núcleo Museológico do Mar da Figueira da Foz, “Octávio, o Polvo que sonhava ver a cores”. 

 


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Isabel Machado: Adoro o papel. Nunca li um único livro em suporte digital.

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Isabel Machado nasceu em Lisboa, concluiu o 12º ano nos Estados Unidos e é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Nos anos 80, venceu o primeiro prémio nacional de um concurso europeu de dissertação em língua francesa e, em 2003, foi-lhe atribuído um prémio de jornalismo da Fundação Roche e da Liga Portuguesa Contra o Cancro por uma reportagem sobre cancro infantil. Fez trabalhos de tradução e de interpretação simultânea, lecionou Português e Francês no ensino básico e Português como língua estrangeira. Durante onze anos foi pivot e jornalista da Televisão de Macau, colaborando regularmente com publicações locais. Em Portugal, foi pivot do Canal Parlamento desde 2003 até janeiro de 2011. Em fevereiro de 2012, publicou o seu primeiro romance “Isabel I de Inglaterra e o seu Médico Português”. O seu segundo romance será publicado no início de 2014.

 

Livros & Leituras  – Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?

Isabel Machado – A escrita, como puro exercício de prazer, entrou cedo na minha vida. Antes, até, da adolescência, sob a forma de pequenos textos e poemas, um hábito que mantive pela vida fora. Profissionalmente, comecei a escrever com o jornalismo e, desde há dois anos, voltei às origens e à minha formação em Letras, um percurso quase inverso ao que fiz quando fui para o jornalismo. Libertador, de certa forma. Neste momento, dedico-me à ficção, ao romance histórico.

L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente? 

IM – É trabalho. Consciente, sim. Apurado também. A inspiração seria uma maravilha se pudéssemos carregar num botão que nos iluminasse. Mas não existe. Há dias iluminados, sem dúvida. Mas há, acima de tudo, uma luta contra a inércia, que me obriga a arrastar os passos até àquele computador, de forma rotineira, repetida, quantas vezes, miseravelmente enfadonha, extenuante. Já toda a gente ouviu falar da vertente dolorosa do ato da escrita. Isso, sim, existe. Mas o prazer também.

L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?

IM – Acho que ainda não há uma verdadeira comunidade. Digo-o com alguma pena mas sem dramatismos porque penso que é um resultado natural da própria história da CPLP e dos percursos dos países que a compõem. Sem exceção, todos os Estados membros atravessaram processos muito complicados, política, económica e socialmente. De antagonismo e costas voltadas. Depois veio a aproximação, fruto de muita vontade, devemos celebrar a CPLP como uma grande conquista, na qual eu acredito profundamente, até porque coloca a tónica na língua comum, um aspeto que me é particularmente querido. Mas há ainda muito desconhecimento uns dos outros. Por pura ignorância de todos nós, por ressentimentos também, por dificuldades de ordem prática, a distância geográfica não ajuda. Ainda funciona um pouco por blocos; o espaço de Portugal, do Brasil, de África, de Timor-Leste. Mas creio que o aprofundamento dos laços e do conhecimento mútuo se tem estreitado muito nos últimos anos.

 

L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?

IM – Acho que esta pergunta se relaciona com a anterior. Para mim, a língua é a marca cultural mais importante de um povo, de uma comunidade qualquer. Nós somos o que falamos. Uma língua, a sua forma de expressão, diz-nos muito de um povo e, juntamente com a religião, é o fator de identidade mais poderoso. Não é por acaso que os regimes repressivos, quando pretendem aniquilar um povo, começam por proibir o uso da língua. Esta pode tornar-se um foco de resistência importantíssimo. Foi assim ao longo da história, em todo o mundo. Mais recentemente, dentro da CPLP, temos o caso exemplar de Timor-Leste. O que mais nos une é esse poder único da língua, acima de quaisquer diferenças. A Literatura é a artesã da língua. É a aproximação natural, tem um espaço privilegiado no reforço dos laços.

 

L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldades encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?

IM – Para editar os trabalhos não tive, até hoje, dificuldade. Tenho trabalhado com a editora A Esfera dos Livros. A divulgação pode trazer alguns problemas porque as entrevistas se concentram no momento que antecede e que se segue ao lançamento e, meses depois, pode instalar-se um terrível silêncio, sobretudo, relativamente a obras de autores menos conhecidos ou que estão a começar.

 

L&L – Que estratégias de incentivo à leitura gostaria de ver implementadas?

IM – Tantas, nem sei se caberá neste espaço! Em primeiro lugar, a escola. Sempre a escola. Ler tem de ser um prazer para os alunos. Uma descoberta. Muitas vezes, os professores encontram jovens que resistem aos livros porque não têm esse hábito de casa, o livro representa, para eles, uma dificuldade, uma coisa maçadora. Há que simplificar a abordagem da literatura, torná-la acessível aos jovens. Simplificar é, para mim, a chave para a aprendizagem de quase tudo. Devem ser estudados mais autores contemporâneos também, a par dos clássicos, desconstruir um pouco as obras, contextualizá-las, falar da época, do autor, aproximar os alunos daquele trabalho, preparando-os para o que vão ler. Eu sei que esta abordagem cria algumas resistências por parte de académicos mas eu acredito que tem excelentes resultados para entusiasmar os jovens. A maior parte das vezes eles recusam os livros porque receiam, não são atraídos por um mundo que lhes parece inalcançável. Os jovens são curiosos, gostam de compreender o que há em torno daquela estória, sobretudo para os autores de épocas mais afastadas. Convidar autores para ir às escolas também me parece um incentivo enorme à leitura. Devia talvez recorrer-se mais à multimédia, com pequenos filmes, documentários, para uma aproximação a linguagens com que os jovens estão mais familiarizados. Depois, há muitas outras formas de aproximar os livros das pessoas: a aposta nas bibliotecas públicas é fundamental. Bibliotecas itinerantes também, para levar a literatura a populações carenciadas ou isoladas. O preço dos livros em Portugal incomoda-me. São excessivamente caros para o poder de compra médio. Mais programas sobre livros nas televisões, nas rádios, mais notícias nos jornais. A reportagem é um veículo fabuloso para divulgar novos escritores, novas obras, e que não obriga à periodicidade de um programa, que comporta muito mais custos. Inclusão de pequenas rubricas sobre livros em programas de entretenimento. Aumento de passatempos em torno da literatura ou com livros como prémio. Promoções nas grandes superfícies. Organização de pequenos eventos pelas Câmaras Municipais, convidando, por exemplo, autores da região ou que escreveram sobre algo que se relaciona com a região nas suas obras, de ficção ou outras. Ideias não faltam...

 

L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?

IM – Não tenho a certeza se isso acontece. Acho, até, que as novas tecnologias são uma ferramenta muito útil na divulgação desses encontros e na aproximação entre escritores e leitores. Podem não só levar mais pessoas a ler e a ter acesso ao que se faz como chamar pessoas aos eventos. Nada substitui a presença física e a oportunidade de falar com um autor cuja obra se admira é sempre um momento especial para os leitores.

 

L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?

IM – Eu adoro o papel. Nunca li um único livro em suporte digital, só excertos. Acho inevitável a presença cada vez maior do suporte digital mas espero que nunca deixe de haver livros em papel. O contacto direto com aquelas folhas que nos contam uma estória tem uma intimidade que o suporte digital jamais alcançará. É quase um toque de pele com pele.

 

L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?

IM – Para já e durante mais dois ou três meses, só posso aconselhar um porque é o único até agora! Trata-se do romance histórico “Isabel I de Inglaterra e o seu médico português”. Mas aconselho a todos! Em primeiro lugar porque se passa num momento crucial da história de Portugal, com a perda da independência em 1580, uma realidade que é pouco conhecida em toda a sua dimensão, e também porque dou a conhecer uma das personagens históricas mais mitificadas de sempre, a rainha Isabel I, cruzando a sua vida com a de uma personagem praticamente desconhecida em Portugal. O médico judeu, Rodrigo Lopes, um homem brilhante que fugiu à Inquisição no nosso país e acabou na corte de Isabel I. A estória põe frente a frente estas duas personagens improváveis, a rainha inglesa e o médico português, nos seus percursos distintos, ambos trágicos, até ao encontro entre os dois, quando Isabel I o nomeia seu médico pessoal na corte, onde irá desempenhar vários papéis, entre os quais o de espião contra a Espanha de Filipe II, que ocupava o trono de Lisboa. É uma história com intensidade, muita intriga, traição, ambição, esplendor, medo e tragédia, uma visão crítica da nossa história a partir de uma das cortes mais vibrantes de sempre, a da rainha Isabel I, uma mulher fascinante na sua complexidade e que teve um papel decisivo na história de Inglaterra.

 

L&L – Que projetos literários tem para o futuro?

IM – Estou em fase de revisão do meu segundo romance histórico. Sairá no início do próximo ano. É uma estória muito viva, que retrata personagens e narra episódios pouco conhecidos e penso que, surpreendentes da nossa história, com grandes figuras portuguesas e mundiais, num período determinante para a Europa e para todo o mundo. É um livro com muita paixão, conflito político, amizade, humor e tragédia. Rivalidade, preconceito, amor-ódio, redenção, contraste e caricatura enchem o romance.


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É um grande privilégio ter vivido uma vida difícil. (Indira Gandhi)

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