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Susana Freitas: "O ato de escrever é desnudar-me"

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Susana Freitas nasceu em mar√ßo de 1975, em Marco de Canaveses. Fez Licenciatura em Geografia, na Universidade de Coimbra, exercendo a doc√™ncia em Geografia desde 1998. Fez mestrado em Geografia Humana pela mesma universidade, tendo conclu√≠do em 2008. Foi formadora de adultos, acumulando com o ensino regular. Em 2011, come√ßou o seu percurso na pintura como hobby. Tem frequentado aulas de pintura, sempre que poss√≠vel. Foi uma evolu√ß√£o r√°pida e dois anos depois come√ßou a expor, tendo j√° realizado v√°rias exposi√ß√Ķes. Em Setembro de 2014, lan√ßou o seu primeiro livro. Um conto escrito e ilustrado por si pr√≥pria ‚ÄúA Menina e a S√°bia‚ÄĚ. Colabora com a R√°dio Prov√≠ncia 100.8 FM numa r√ļbrica semanal sobre livros e autores intitulada: ‚ÄúEscritas e Leituras‚ÄĚ a par do blogue: ‚ÄúA R√°dio tamb√©m gosta de Livros‚ÄĚ. Tem ainda um blogue pessoal onde vai partilhando a sua evolu√ß√£o e o seu percurso na escrita e pintura em: http://sanafreitas.blogspot.pt/

 

Livros & Leituras ‚Äď Que significado tem para si o ato de escrever e a partir de que altura este se tornou ‚Äúprofissional‚ÄĚ?¬†

Susana Freitas ‚Äď O ato de escrever √© desnudar-me, da√≠ a dificuldade em escrever, ou melhor, em mostrar o que escrevo. Mesmo que seja uma personagem inventada, fict√≠cia, √© colocar no ato de a criar, muito de quem cria, coloco muito de mim em tudo o que escrevo e fa√ßo. A escrita jamais ser√°, para mim, ‚Äúprofissional‚ÄĚ mesmo que venha a trabalhar no mundo dos escritores, que √© o que pretendo. Escrever √© dar de mim, e isso s√≥ se faz por amor.

 

L&L ‚Äď √Č preciso ser um bom leitor para se ser um bom escritor?

SF ‚Äď √Č preciso ser leitor. √Č preciso ler muito. Mas n√£o me parece que existam f√≥rmulas. H√° quem seja um bom leitor e n√£o escreva e h√° quem escreva e n√£o seja grande leitor.

 

L&L ‚Äď O seu trabalho √© vers√°til ou, pelo contr√°rio, tem um estilo muito pr√≥prio e facilmente identific√°vel pelos leitores?

SF ‚Äď S√≥ publiquei um livro infanto-juvenil, √© um conto que ilustrei com pinturas minhas. O segundo livro que j√° est√° pronto, vai ser do mesmo g√©nero, mas pretendo vir a concretizar projetos j√° iniciados de outros estilos. Superar-me est√° na minha ess√™ncia, veremos se depois conseguirei agradar aos leitores e se estes identificam um estilo pr√≥prio.

 

L&L ‚Äď √Āreas como, por exemplo, a ilustra√ß√£o e a m√ļsica t√™m vindo a afirmar-se na sua rela√ß√£o com a Literatura. Como encara esse facto?

SF ‚Äď No meu livro ‚ÄúA Menina e a S√°bia‚ÄĚ eu apostei na ilustra√ß√£o muito original e diferente do habitual para livros, principalmente para o p√ļblico-alvo. Estou a preparar um projeto musical para associar a este livro. Acredito que o caminho √© mesmo misturar as diferentes artes e, principalmente, misturar os diferentes conhecimentos e experi√™ncias dos diversos intervenientes. Ningu√©m sobrevive sozinho. Associar a m√ļsica, a ilustra√ß√£o, a fotografia, o cinema, etc‚Ķ aos livros, s√£o mais-valias em que todos ficam a beneficiar e ningu√©m fica a perder, uma vez que as v√°rias sinergias se podem motivar e complementar e assim atingir novos p√ļblicos.

L&L ‚Äď A tradi√ß√£o oral representa, nalguns pa√≠ses da lusofonia, uma importante marca de identidade cultural. A globaliza√ß√£o e a dificuldade em editar podem ser uma amea√ßa √† perda desse patrim√≥nio?

SF ‚Äď Acredito que n√£o. A tradi√ß√£o oral √© cada vez mais protegida at√© pela publica√ß√£o, pelo menos quero acreditar nisso. N√£o me parece que seja assim t√£o dif√≠cil editar, o mais dif√≠cil √© divulgar os trabalhos e fazer com que tenham a proje√ß√£o que alguns merecem. A oferta √© grande e nem sempre um novo autor tem facilidade em se impor. Mas em alguns casos, a globaliza√ß√£o e as redes sociais ajudam muito.

L&L ‚Äď A L√≠ngua Portuguesa √© uma mais-valia no panorama liter√°rio mundial?¬†

SF ‚Äď N√£o sei responder. Sei que h√° dificuldade em traduzir uma l√≠ngua complexa como a nossa. O meu livro tem estado a ser traduzido para franc√™s e a dificuldade prende-se com os sentidos que eu dei √†s palavras. J√° est√° na terceira tentativa de tradu√ß√£o. Desta vez, estou a trabalhar diretamente com a tradutora para lhe explicar o sentido que pretendo na escolha das minhas palavras. Se n√£o estivesse a trabalhar diretamente com a tradutora, o livro seria traduzido √† letra o que faria com que se perdesse alguma riqueza do que pretendi escrever. Talvez seja esse o problema de alguns livros portugueses, pois em Portugal e em portugu√™s h√° trabalhos t√£o bons como em qualquer parte do mundo ou l√≠ngua.

L&L ‚Äď Quais os seus escritores lus√≥fonos favoritos e porqu√™?

SF ‚Äď Paulo Coelho est√° no topo de uma longa lista de prefer√™ncias, seria mesmo muito longa.

L&L ‚Äď Ao n√≠vel da Literatura, que medidas poder√£o ser implementadas para que o universo lus√≥fono seja uma realidade mais coesa entre escritores de diferentes nacionalidades?

SF ‚Äď Talvez mais encontros entre autores de v√°rias nacionalidades em que pudessem partilhar experi√™ncias e levar at√© outras paragens o que se vai fazendo dentro das fronteiras.

L&L ‚Äď A Internet e os recentes suportes inform√°ticos contribuem para o refor√ßo e promo√ß√£o do seu trabalho?

SF ‚Äď Sem d√ļvida alguma. Neste momento acredito que √© o maior recurso de promo√ß√£o. Em projetos pequenos ou de novos autores que n√£o t√™m capacidade de pagar campanhas publicit√°rias, o recurso mais acess√≠vel e f√°cil √© a Internet e as redes sociais.

L&L ‚Äď Qual o maior desafio que j√° enfrentou ou que gostaria de enfrentar em termos profissionais?

SF ‚Äď Como docente de Geografia em v√°rios tipos de ensino, j√° tive muitos desafios, a pintura e a escrita tamb√©m foram desafios que fui superando; mas acredito que os maiores desafios est√£o ainda para vir: novos projetos relacionados com este mundo maravilhoso dos livros.

 

*Entrevista realizada no √Ęmbito do ‚ÄúMunda Lus√≥fono ‚Äď 2.¬ļ Encontro Liter√°rio de Montemor-o-Velho‚ÄĚ


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T√Ęnia Gomes: "A escrita cresceu lado a lado com o meu amor pela leitura"

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T√Ęnia Gomes √©, acima de tudo, uma criadora apaixonada. O seu mundo √© o da fantasia e magia, e √© a este mundo, assim como √† Natureza, que ela vai buscar a sua inspira√ß√£o. Tudo come√ßou com a cria√ß√£o do seu primeiro mundo de fantasia ‚Äď o mundo de Aiah. Depois de terminar o curso de Artes Pl√°sticas ‚Äď Escultura, T√Ęnia dedica-se √† escrita e a melhorar as suas capacidades de desenho. As hist√≥rias que escreve come√ßam a ganhar uma dimens√£o maior, dando lugar ao seu primeiro livro, que √© o in√≠cio de uma longa saga ‚Äď ‚ÄúA Era dos Elfos‚ÄĚ. O gosto pela ilustra√ß√£o f√°-la explorar outras t√©cnicas e, desde o final de 2013 dedica-se √† aprendizagem de t√©cnicas art√≠sticas digitais. Num instante, interessa-se pela t√©cnica 3D, que em muito a faz lembrar a escultura e, ao mesmo tempo, continua a aprender pintura digital e foto-manipula√ß√£o. Entretanto, estuda lingu√≠stica e a cria√ß√£o de l√≠nguas. Todas as atividades criativas a que se dedica t√™m como finalidade a cria√ß√£o completa de mundos de fantasia.

Livros & Leituras ‚Äď Que significado tem para si o ato de escrever e a partir de que altura este se tornou ‚Äúprofissional‚ÄĚ?

T√Ęnia Gomes ‚Äď Eu sempre escrevi, desde crian√ßa. Sempre adorei criar hist√≥rias e sempre adorei coloc√°-las no papel. Para mim foi e √© uma maneira de trazer para este mundo tudo o que a minha imagina√ß√£o cria, de materializar os mundos que existem na minha mente e que s√£o de certo modo uma das mais √≠ntimas manifesta√ß√Ķes do meu ser. Durante muito tempo escrevia simplesmente o que fosse imaginando, sem grande preocupa√ß√£o em criar algo conciso. Pequenas hist√≥rias de uma p√°gina, descri√ß√Ķes de seres que imaginava... Qualquer coisa que me apetecesse. At√© ao momento em que decidi que queria mesmo come√ßar a criar e estruturar estes mundos que me iam florescendo na mente. Honestamente, n√£o ligo muito √† quest√£o de ser profissional ou n√£o. Escrever √© um gosto, uma paix√£o. Criar mundos de fantasia √© das coisas mais maravilhosas que me podem dar para fazer. Claro que a partir do momento em que publico um livro passo a ser considerada escritora profissional e as responsabilidades em rela√ß√£o aos livros publicados e √† sua continua√ß√£o, visto trabalhar com sagas, aumenta. Mas o ato de escrever continua a ser para mim um ato √≠ntimo em que a minha mente, o meu ser, a minha imagina√ß√£o se pode manifestar livremente neste mundo. √Č uma ato de pura cria√ß√£o imaginativa.

L&L ‚Äď √Č preciso ser um bom leitor para se ser um bom escritor?

TG ‚Äď N√£o sei se tenho o direito de falar por toda a gente, mas acredito que sim. Para mim sem d√ļvida √©. O meu amor pela escrita cresceu lado a lado com o meu amor pela leitura. Ainda hoje se por algum motivo a escrita n√£o est√° a correr bem, a salva√ß√£o √© ler um livro. Para se ser um bom escritor n√£o basta saber escrever, assim como para ser um bom maratonista n√£o basta saber correr. √Č preciso saber criar (entre muitas outras coisas) uma boa estrutura de hist√≥ria, √© preciso conseguir envolver o leitor atrav√©s das palavras, da constru√ß√£o das frases, da expressividade do texto. A mesma ideia pode ser dita de infind√°veis formas diferentes, transmitindo um sentido diferente em cada uma delas. Ler livros de diferentes autores exp√Ķe-nos a diferentes formas de transmitir ideias. Ser leitora ensina-me a ser escritora pois, ao ler, eu sinto pessoalmente o que me prende a diferentes hist√≥rias e o que me cria desinteresse. Eu aumento o meu vocabul√°rio e o meu conhecimento de sintaxe, levando-me a explorar formas diferentes de construir o texto, mantendo-me numa evolu√ß√£o constante enquanto escritora.

L&L ‚Äď O seu trabalho √© vers√°til ou, pelo contr√°rio, tem um estilo muito pr√≥prio e facilmente identific√°vel pelos leitores?

TG ‚Äď Apesar de conseguir escrever em muitos estilos diferentes n√£o, o meu trabalho n√£o √© vers√°til e, ligando um pouco √† quest√£o anterior, a minha leitura tamb√©m n√£o √© muito vers√°til. A minha grande paix√£o √© a fantasia e quer como leitora quer como escritora √© aquilo a que me dedico. Claro que j√° li muitas coisas que n√£o s√£o de fantasia e continuarei a faz√™-lo, mas enquanto escritora √© a cria√ß√£o de mundos de fantasia e das suas hist√≥rias a que me dedico. N√£o sei se o meu estilo √© ou n√£o facilmente identific√°vel pelos leitores, mas acredito que sim, que tenho um estilo muito pr√≥prio quer a n√≠vel das hist√≥rias quer da escrita em si. Algumas pessoas conhecidas de facto disseram-me, depois de ler o livro que, conhecendo-me, √© t√£o f√°cil ver-me, sentir-me em cada palavra e frase, que o livro ‚Äú√© t√£o eu‚ÄĚ... √Č, talvez, o melhor elogio que me podiam dar, uma vez que me entrego de alma e cora√ß√£o √†s minhas cria√ß√Ķes. Para al√©m disso, estes mundos que crio s√£o de facto algo muito √≠ntimo do meu ser. S√£o os meus ref√ļgios, os locais onde gosto de me passear quando n√£o quero passear-me por este mundo. Materializ√°-los √© uma forma de os tornar reais... Partilh√°-los √© uma forma de me partilhar a mim mesma com o mundo.

L&L ‚Äď √Āreas como, por exemplo, a ilustra√ß√£o e a m√ļsica t√™m vindo a afirmar-se na sua rela√ß√£o com a Literatura. Como encara esse facto?

TG ‚Äď √Č algo completamente intr√≠nseco para mim. Na realidade a minha √°rea de estudos √© Belas-Artes e n√£o Literatura. Para mim √© estranho ver-me simplesmente como uma escritora. Eu vejo-me e sinto-me mais como uma criadora. Essa √© a minha paix√£o: criar. Para isso, utilizo todas as ferramentas que possuo. Na realidade, as hist√≥rias dos meus livros aparecem-me como imagens animadas na minha mente. Eu vejo a hist√≥ria a acontecer visualmente, como se fosse um filme e depois descrevo por escrito aquilo que vejo. Muitas vezes, para ajudar a esta descri√ß√£o fa√ßo esbo√ßos do que visualizo, crio as personagens em 3D, materializo visualmente aquilo de que sinto necessidade (ou que simplesmente quero muito ilustrar)... Utilizo todos os meios que tenho para dar vida aos meus mundos. O meu gosto pelo desenho, e pela ilustra√ß√£o √© uma mais-valia na cria√ß√£o dos meus livros, apesar de n√£o ser ilustradora profissional. Para al√©m disso, h√° uma satisfa√ß√£o imensa em poder realmente ver as minhas t√£o adoradas personagens. √Č como v√™-las nascer... Quanto √† m√ļsica a rela√ß√£o √© diferente. N√£o sou nem nunca fui m√ļsica, √© uma √°rea de cria√ß√£o a que nunca me dediquei, com alguma pena minha. Mas a m√ļsica √© uma parte muito importante na minha vida. Para al√©m de embalar toda a minha escrita, inspira-me e ajuda-me a sonhar, a viajar atrav√©s destes mundos de fantasia. Este amor pela m√ļsica acaba por se manifestar nos meus livros quer no uso de recursos estil√≠sticos quer como uma parte da hist√≥ria, visto que a m√ļsica e a dan√ßa fazem parte do dia-a-dia das minhas personagens.

L&L ‚Äď A tradi√ß√£o oral representa, nalguns pa√≠ses da lusofonia, uma importante marca de identidade cultural. A globaliza√ß√£o e a dificuldade em editar podem ser uma amea√ßa √† perda desse patrim√≥nio?

TG ‚Äď Penso que a tradi√ß√£o oral tem vindo a perder-se imenso n√£o s√≥ em pa√≠ses lus√≥fonos como em todo o mundo. Penso ser algo natural tendo em conta o caminho evolutivo em que estamos. A transmiss√£o oral teve j√° muita for√ßa por diversas raz√Ķes diferentes, sendo uma das principais o facto de uma grande generalidade da popula√ß√£o n√£o saber ler nem escrever ou, mesmo que soubesse, n√£o ter acesso a material de leitura ou √† informa√ß√£o. Deste modo √© natural que, √† medida que a facilidade de aceder √† informa√ß√£o aumenta, se perca a tradi√ß√£o de contar hist√≥rias ou de passar informa√ß√£o oralmente. Isto pode ser uma mais-valia. Como artista marcial, tenho uma grande consci√™ncia da quantidade de informa√ß√£o valios√≠ssima que se perdeu por ser passada apenas oralmente. Deste modo, penso que a globaliza√ß√£o da informa√ß√£o tem sim um papel muito relevante para esta diminui√ß√£o da tradi√ß√£o oral. Em rela√ß√£o √† identidade cultural, n√£o √© algo est√°tico, mas antes um organismo vivo que evolui ao longo dos tempos. Muitos defendem que acabar com as touradas √© uma perda de identidade cultural, eu pessoalmente acho que √© simplesmente acabar com sofrimento gratuito. Obviamente que a tradi√ß√£o oral, ao contr√°rio das touradas, n√£o √© prejudicial a ningu√©m, mas no caminho evolutivo h√° sempre coisas que s√£o deixadas para tr√°s. Este √© um processo natural. Podemos claro tentar manter tradi√ß√Ķes que consideramos de valor, mas nada existe eternamente.

L&L ‚Äď A L√≠ngua Portuguesa √© uma mais-valia no panorama liter√°rio mundial?

TG ‚Äď N√£o tenho muita no√ß√£o da import√Ęncia da L√≠ngua Portuguesa (ou de autores portugueses) no panorama liter√°rio mundial. Sei que para mim, pessoalmente, escrever em portugu√™s n√£o √© de todo uma mais-valia a n√≠vel de internacionaliza√ß√£o. O estilo de fantasia n√£o √© muito lido em Portugal, mas √© bastante a n√≠vel mundial. No entanto, como escritora portuguesa, ou encontro ag√™ncias que trabalham com autores portugueses mas n√£o com fantasia, ou ag√™ncias que trabalham com fantasia mas n√£o com textos em portugu√™s. A escrita em portugu√™s torna-se assim um obst√°culo √† publica√ß√£o do meu livro noutras l√≠nguas.

L&L ‚Äď Quais os seus escritores lus√≥fonos favoritos e porqu√™?

TG ‚Äď Na realidade, n√£o tenho escritores lus√≥fonos preferidos. Os meus autores favoritos s√£o autores de fantasia e n√£o h√° muitos que eu conhe√ßa lus√≥fonos. Para ser sincera leio muito pouca literatura lus√≥fona e s√≥ depois da publica√ß√£o do meu primeiro livro comecei a conhecer alguns autores de fantasia lus√≥fonos, acima de tudo por conversas que tenho com leitores que referem o facto de haver muito poucos. Como escritora em Portugal, e conhecendo em primeira m√£o as dificuldades que temos em divulgar e vender, at√© sinto vontade de procurar mais literatura lus√≥fona, mas de facto n√£o encontro muitos temas que me deem gosto ler. Come√ßa a haver cada vez mais escritores brasileiros na √°rea da fantasia, mas mesmo assim ainda n√£o t√™m um peso muito forte nas minhas estantes. Algo a mudar.

L&L ‚Äď Ao n√≠vel da Literatura, que medidas poder√£o ser implementadas para que o universo lus√≥fono seja uma realidade mais coesa entre escritores de diferentes nacionalidades?

TG ‚Äď Para ser muito sincera n√£o sei. Confesso que estas s√£o quest√Ķes sobre as quais n√£o me debru√ßo muito. Sou mais uma escritora/criadora de estar no meu mundinho a criar, n√£o de me envolver muito em eventos ou reuni√Ķes culturais. Na realidade, esta √© a parte que menos gosto em ter agora um livro publicado. Participar em apresenta√ß√Ķes, encontros liter√°rios e outros eventos √© parte do trabalho e algo de grande import√Ęncia para a divulga√ß√£o de um autor. No entanto, sempre que participo em algum evento, n√£o consigo deixar de pensar que naquele tempo teria conseguido escrever mais um cap√≠tulo, desenhado mais uma parte do mapa, acabado uma ilustra√ß√£o... O que for. Sou uma pessoa mais introvertida e com um grande gosto em estar no meu espa√ßo a criar as minhas coisas.

L&L ‚Äď A Internet e os recentes suportes inform√°ticos contribuem para o refor√ßo e promo√ß√£o do seu trabalho?

TG ‚Äď Sim, bastante. Na realidade acredito que cerca de 80% da divulga√ß√£o de meu trabalho √© feito atrav√©s da Internet.

L&L ‚Äď Qual o maior desafio que j√° enfrentou ou que gostaria de enfrentar em termos profissionais?

TG ‚Äď O maior desafio que podia ter, enfrento diariamente, que √© conseguir ter tempo para me dedicar a tudo o que fa√ßo. A escrita e a arte n√£o s√£o o que me sustenta economicamente. O que significa que tenho um emprego (ali√°s, dois) que, apesar de ligados a artes gr√°ficas, n√£o est√£o ligados ao meu trabalho pessoal. Para al√©m disso, sou professora e aluna de artes marciais (Bujinkan Budo Taijutsu), o que significa que dou aulas e tamb√©m vou a aulas. E no meio de tudo isto ainda vou conseguindo ter tempo para escrever e, de vez em quando, para me dedicar √†s artes. Para al√©m disso, estou agora a ter o grande desafio de tentar publicar o meu livro no Brasil, o que significa andar a contactar com editoras brasileiras sempre que consigo ter algum tempo extra. O √ļltimo ano da minha vida tem sido marcado por desafios atr√°s de desafios e conseguir super√°-los todos e conjugar tudo o que fa√ßo √© fant√°stico e altamente motivador.

*Entrevista realizada no √Ęmbito do ‚ÄúMunda Lus√≥fono ‚Äď 2.¬ļ Encontro Liter√°rio de Montemor-o-Velho‚ÄĚ


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Ana Luísa Carapinheiro: "Ato de escrever é eternizar palavras"

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Ana Lu√≠sa Carapinheiro nasceu em 1982. √Č licenciada em Psicologia pela Universidade Lus√≠ada do Porto e em Educa√ß√£o de inf√Ęncia pela Escola Superior de Educa√ß√£o Jean Piaget de Vila Nova de Gaia. Possui mestrado em Psicologia da Educa√ß√£o pela Universidade Lus√≥fona do Porto¬†e um doutoramento na Universidade de Santiago de Compostela em Literatura para a Inf√Ęncia.¬†Professora/Formadora desde 2009.¬†Alguns dos t√≠tulos editados s√£o: ‚ÄúSer Amigo √Č‚ÄĚ, ‚ÄúIni‚ÄĚ, ‚ÄúSer Portugu√™s √©‚ÄĚ, ‚ÄúLeonardo e a M√°quina Voadora‚ÄĚ e ‚ÄúO Porto √©‚ÄĚ. Al√©m da escrita, tamb√©m faz trabalhos de ilustra√ß√£o. √Č consultora editorial na Petit Publisher.

 

Livros & Leituras ‚Äď Que significado tem para si o ato de escrever e a partir de que altura este se tornou ‚Äúprofissional‚ÄĚ?

Ana Lu√≠sa Carapinheiro ‚Äď Para mim, o acto de escrever √© muito importante, pois permite-me sonhar e fazer os outros sonhar, √©, acima de tudo, eternizar palavras. Escrevo desde crian√ßa, comecei por escrever poesia e posteriormente contos. O meu primeiro livro infantil surgiu durante a elabora√ß√£o da minha tese de mestrado em Psicologia da Educa√ß√£o. A tese tinha como finalidade identificar as conce√ß√Ķes de amizade num grupo de crian√ßas de cinco anos e, atrav√©s da an√°lise das entrevistas pensei: porque n√£o fazer um livro infantil que explique aos mais pequenos o que √© amizade? Da√≠, nasceu o meu primeiro livro ‚ÄúSer amigo √©‚ÄĚ, a partir desse momento nunca mais consegui parar de escrever e, consequentemente, de publicar livros infantis.

L&L ‚Äď √Č preciso ser um bom leitor para se ser um bom escritor?

ALC ‚Äď Sim, sem d√ļvida.

L&L ‚Äď O seu trabalho √© vers√°til ou, pelo contr√°rio, tem um estilo muito pr√≥prio e facilmente identific√°vel pelos leitores?

ALC ‚ÄďNa minha opini√£o, o meu trabalho √© facilmente identific√°vel, pois escrevo livros infantis com pouco texto e abordam tem√°ticas relevantes para o desenvolvimento cognitivo, social e emocional das crian√ßas (talvez por ser licenciada em educa√ß√£o de inf√Ęncia consiga mais facilmente compreender como pode e deve ser um livro infantil). O meu estilo consiste basicamente em texto simples mas n√£o simplista, n√£o nos podemos esquecer que o p√ļblico infantil pode e deve ter acesso a livros ajustados √†s suas caracter√≠sticas, ou seja, pouco texto, vocabul√°rio que possa ser compreendido e que capte a sua aten√ß√£o, promovendo assim h√°bitos de leitura.

L&L ‚Äď √Āreas como, por exemplo, a ilustra√ß√£o e a m√ļsica t√™m vindo a afirmar-se na sua rela√ß√£o com a Literatura. Como encara esse facto?

ALC ‚Äď A ilustra√ß√£o bem como a pintura sempre tiveram um papel importante na minha vida, isto porque a minha m√£e √© pintora e tamb√©m ilustradora, acabando por me levar para o mundo da arte. Pinto desde crian√ßa e recentemente decidi igualmente experimentar a ilustra√ß√£o, tendo por isso realizado alguns workshops de ilustra√ß√£o com ilustradores que admiro e com quem aprendi imenso. Encaro esta aproxima√ß√£o com a ilustra√ß√£o como algo de muito positivo j√° que muitas vezes √© complicado para um escritor explicar ao ilustrador como pretende ver o livro ilustrado, torna-se por vezes complicado criar a uni√£o entre o texto e a ilustra√ß√£o e √© por isso mesmo que o √ļltimo livro publicado foi escrito e ilustrado por mim. Neste sentido, a ilustra√ß√£o √©, neste momento, uma √°rea na qual pretendo adquirir mais conhecimentos e investir cada vez mais.

L&L ‚Äď A tradi√ß√£o oral representa, nalguns pa√≠ses da lusofonia, uma importante marca de identidade cultural. A globaliza√ß√£o e a dificuldade em editar podem ser uma amea√ßa √† perda desse patrim√≥nio?

ALC ‚Äď Penso que n√£o. Embora possam existir dificuldades em editar essas mesmas hist√≥rias e/ou lendas estas s√£o transmitidas de forma oral, de gera√ß√£o em gera√ß√£o, portanto creio que embora seja mais dif√≠cil aceder √† tradi√ß√£o oral (atrav√©s do livro) est√° jamais desaparecer√°, pois cabe a n√≥s n√£o deixar que tal aconte√ßa.

L&L ‚Äď A L√≠ngua Portuguesa √© uma mais-valia no panorama liter√°rio mundial?

ALC ‚Äď Claro que sim, foi, √© e ser√° sempre uma mais-valia no panorama liter√°rio mundial.

L&L ‚Äď Quais os seus escritores lus√≥fonos favoritos e porqu√™?

ALC ‚Äď Gosto de v√°rios escritores lus√≥fonos, no entanto, o meu escritor favorito √©, sem d√ļvida, o Fernando Pessoa, um g√©nio e tamb√©m ‚Äúinventor de almas‚ÄĚ.

L&L ‚Äď Ao n√≠vel da Literatura, que medidas poder√£o ser implementadas para que o universo lus√≥fono seja uma realidade mais coesa entre escritores de diferentes nacionalidades?

ALC ‚Äď V√°rias medidas podem e devem ser tomadas para criar uma realidade mais coesa entre escritores lus√≥fonos, entre as quais: a cria√ß√£o de encontros liter√°rios, permitindo a divulga√ß√£o do trabalho dos diferentes escritores bem como a partilha/troca de ideias e informa√ß√£o; concursos liter√°rios para a promo√ß√£o da l√≠ngua portuguesa e a publica√ß√£o de colet√Ęneas de diferentes autores lus√≥fonos num √ļnico livro.

L&L ‚Äď A Internet e os recentes suportes inform√°ticos contribuem para o refor√ßo e promo√ß√£o do seu trabalho?

ALC ‚Äď Sim. Atrav√©s das redes sociais o meu trabalho facilmente chega a qualquer parte do mundo, recebo frequentemente mensagens sobre os meus livros e com pedidos de informa√ß√£o sobre estes.

L&L ‚Äď Qual o maior desafio que j√° enfrentou ou que gostaria de enfrentar em termos profissionais?

ALC ‚Äď O maior desafio que enfrentei e tenho enfrentado √© o pl√°gio, √© muito desagrad√°vel saber que existem pessoas com falta de originalidade e que se limitam a copiar o nosso trabalho.


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Helena Osório: "Escrever é um desabafo da alma"

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                                                                                                                           Foto: Joel Snitram

Helena Os√≥rio nasceu em Benguela, Angola, em 1967. √Č escritora,¬†historiadora,¬†jornalista e editora de livros e outras publica√ß√Ķes. Doutorada em Estudos sobre a Hist√≥ria da Arte e da M√ļsica pela¬†Universidade de Santiago de Compostela¬†, com nota m√°xima ('Sobresaliente cum Laude') e reconhecimento do grau acad√©mico portugu√™s de Doutor registado, na Universidade do Porto; p√≥s-graduada e¬†mestre¬†em Artes Decorativas¬†pela¬†Universidade Cat√≥lica Portuguesa e licenciada em¬†Estudos Europeus¬†pela¬†Universidade Moderna de Lisboa. Foi assessora editorial no¬†Mosaiko Instituto para a Cidadania,¬†docente¬†nos grupos de Artes Visuais e Economia, mentora e coordenadora editorial da revista de artes¬†Bombart¬†(registada como VomVart¬†e editada pelo Projeto, N√ļcleo de Desenvolvimento Cultural de V.N. Cerveira), guionista do programa televisivo¬†Fam√≠lia Galar√≥. Em 2009, fundou a¬†Animedi√ß√Ķes, editora de arte e literatura. Desde 1989 que escreve para v√°rias revistas e jornais¬†. Foi igualmente distinguida com o XIX, XXII e XXIII¬†Pr√©mio Abril¬†de Jornalismo, em 1993, 1996, 1997 respetivamente, da¬†Casa Cl√°udia Portugal,¬†Editora Abril¬†Brasil. Em 1989 obteve o II Pr√©mio do Concurso Moda de Gala sobre a¬†Revolu√ß√£o Francesa,¬†Hotel Le Meridien,¬†Porto. Possui ainda forma√ß√Ķes em: Design de Moda (Externato de Nossa Senhora do Perp√©tuo Socorro), Jornalismo Geral e Televisivo (CENJOR), Pintura (c/¬†Gabriela Albergaria¬†e¬†Marta Wengorious), Interpreta√ß√£o da Obra de Arte (c/¬†Delfim Sardo), Hist√≥ria e Teoria da Arte (AR.CO), Escrita Criativa (c/¬†Nuno Artur Silva, Escola do Risco), Escrita para Teatro (c/¬†Jorge Silva Melo), Design e Arquitetura de Interiores (IATA) e Forma√ß√£o para Formadores (CENATEX)¬†. Tem participa√ß√£o como autora e ilustradora em v√°rias colet√Ęneas, assim como editora de v√°rias obras em literatura infanto-juvenil, contos, cr√≥nica, novela e romance com a chancela Animedi√ß√Ķes. Bibliografia infanto-juvenil: ‚ÄúDos 8 aos 80‚ÄĚ, ‚ÄúA √Ārvore que Falava e O Menino do Deserto‚ÄĚ, ‚ÄúO Grande Feiticeiro Amarelo‚ÄĚ, ‚ÄúNum Tempo em que os Animais Falam‚ÄĚ, ‚ÄúViagem de Jos√© pelo Mundo dos Sonhos‚ÄĚ, ‚ÄúQuem Chama pelo Galo Preto? Aventuras de um galo com dentes‚ÄĚ, ‚ÄúTempo de magia: Duendes, Elfos e Gnomos para adormecer sem medo‚ÄĚ e ‚ÄúOsvaldo Encantador de Cobras e Lagartos‚ÄĚ. Bibliografia adulto-juvenil (romance): ‚ÄúVoando nas Asas de um Pombo Verde. Em Viagem por Angola (1917-2013)‚ÄĚ.

Livros & Leituras ‚Äď Que significado tem para si o ato de escrever e a partir de que altura este se tornou ‚Äúprofissional‚ÄĚ?¬†

Helena Os√≥rio ‚Äď Escrever √© um desabafo da alma. Os pensamentos volitam dentro de mim, como se fossem vozes alheias que se sobrep√Ķem a tudo. Falam mais alto e obrigam-me a aprision√°-los no papel para que n√£o se evaporem, pere√ßam, ganhem a possibilidade de serem repensados por outras pessoas. Comecei a escrever com oito anos quando deixei a terra-m√£e (Angola). Os sentimentos agrestes e contr√°rios como o pr√≥prio mar e o ambiente rom√Ęntico da Foz Velha, no Porto, despertaram em mim a vontade de desabafar no sil√™ncio. Escrevi e desenhei muito em cadernos que transformei em livros e contei um sem fim de hist√≥rias inventadas, a meninos como eu, no s√≥t√£o da casa oitocentista onde vivi. Mas s√≥ a partir dos 22 o fiz profissionalmente, primeiro como jornalista e mais tarde como autora.

 

L&L ‚Äď √Č preciso ser um bom leitor para se ser um bom escritor?

HO ‚Äď N√£o. √Č preciso estar vivo e viver intensamente, rir, amar, sofrer, sem medo, e embrenhar-se em todo o tipo de hist√≥rias escritas, vividas e contadas.

 

L&L ‚Äď O seu trabalho √© vers√°til ou, pelo contr√°rio, tem um estilo muito pr√≥prio e facilmente identific√°vel pelos leitores?

HO ‚Äď Escrevo contos para crian√ßas e jovens, romances e poesia para adultos, mas sempre num registo po√©tico e muito descritivo onde enalte√ßo cores, ritmos, emo√ß√Ķes.

 

L&L ‚Äď √Āreas como, por exemplo, a ilustra√ß√£o e a m√ļsica t√™m vindo a afirmar-se na sua rela√ß√£o com a Literatura. Como encara esse facto?

HO ‚Äď Sempre fui multifacetada e confesso que sinto dificuldade, ainda hoje, em encontrar um rumo num s√≥ sentido. Disperso muito, interesso-me por v√°rias mat√©rias, o que tamb√©m me enriquece como autora pois passo-o √† escrita. Assim optei por unir as disciplinas, todas num s√≥ suporte (o livro), procurando aliar-me a novos talentos e consagrados para levar as artes mais longe e para os artistas poderem ser estudados em contexto de sala de aula uma vez que me dedico muito √† literatura infanto-juvenil.

L&L ‚Äď A tradi√ß√£o oral representa, nalguns pa√≠ses da lusofonia, uma importante marca de identidade cultural. A globaliza√ß√£o e a dificuldade em editar podem ser uma amea√ßa √† perda desse patrim√≥nio?

HO ‚Äď Esse patrim√≥nio que circula atrav√©s da voz n√£o morre, passa de boca em boca, de gera√ß√£o em gera√ß√£o e fica. No caso de Angola, onde nasci e que sofreu dezenas de anos de guerra, tendo os seus povos perdido a identidade, sim, corre-se esse risco. √Č muito importante hoje lermos os registos do su√≠√ßo H√©li Chatelain publicados no s√©culo XIX e mesmo os mais pol√©micos do italiano Antonio Cavazzi de Montecuccolo que acompanhou a Rainha Njinga no s√©culo XVII. Mas os livros podem ser publicados e nunca lidos, ficam em estantes de casas, bibliotecas, livrarias. S√£o tantas vezes queimados, deitados ao lixo e ainda com folhas coladas por ler... Confirmei-o na investiga√ß√£o efetuada para os estudos de doutoramento e mestrado. A globaliza√ß√£o acaba por ser uma amea√ßa ao 'eu' pensante, mas felizmente nunca deixar√£o de haver ovelhas tresmalhadas a marcar a diferen√ßa nos rebanhos.

L&L ‚Äď A L√≠ngua Portuguesa √© uma mais-valia no panorama liter√°rio mundial?¬†

HO ‚Äď Claro que sim. Pena que a L√≠ngua Portuguesa esteja a ser t√£o maltratada e a perder tamb√©m ela a identidade. As v√°rias grafias vigentes relacionam-se com a pr√≥pria hist√≥ria dos pa√≠ses onde se afirmam. H√° que preserv√°-las, o que n√£o impede que haja uma natural evolu√ß√£o. Mas est√° a acontecer uma confus√£o geral porque a maioria das pessoas escreve em tr√™s grafias sem se aperceber. Na tese de doutoramento, estudei obras de 14 autores publicadas em finais do s√©culo XIX e tive o cuidado de transcrever a grafia de cada qual para se poder notar a evolu√ß√£o at√© hoje. J√° na √©poca e antes da primeira revis√£o da L√≠ngua em 1911, se escrevia de v√°rias formas como hoje, estando uns autores mais ligados √† antiga grafia e outros j√° com a pena no s√©culo XX. Na verdade, antes das invas√Ķes est√°vamos mais perto da cultura francesa e depois passamos a estar da inglesa, o que suscitou altera√ß√Ķes nos modos de estar e viver e na grafia. Ou seja, antes n√£o us√°vamos mai√ļscula nas esta√ß√Ķes e meses, depois pass√°mos a usar e agora volt√°mos ao princ√≠pio. O Brasil n√£o sofreu o conflito e por isso manteve a escrita. Esta √© a minha teoria que d√° pano para mangas e por isso n√£o a posso defender aqui. Mas a nossa l√≠ngua √© linda e riqu√≠ssima, √© m√£e, e devia sofrer uma nova revis√£o √† altura.

L&L ‚Äď Quais os seus escritores lus√≥fonos favoritos e porqu√™?

HO ‚Äď N√£o tenho escritores preferidos, aprecio mais umas do que outras obras.

 

L&L ‚Äď Ao n√≠vel da Literatura, que medidas poder√£o ser implementadas para que o universo lus√≥fono seja uma realidade mais coesa entre escritores de diferentes nacionalidades?

HO ‚Äď Devem promover-se mais eventos liter√°rios e festivais que fa√ßam circular e divulguem n√£o apenas os escritores mais conhecidos. Dar lugar aos novos.

L&L ‚Äď A Internet e os recentes suportes inform√°ticos contribuem para o refor√ßo e promo√ß√£o do seu trabalho?

HO ‚Äď Sim, mas √© maior a fama do que o proveito.

L&L ‚Äď Qual o maior desafio que j√° enfrentou ou que gostaria de enfrentar em termos profissionais?

HO ‚Äď O maior desafio foi a crise, ficar sem emprego com dois filhos a cargo e ter de usar a imagina√ß√£o. Mas j√° estou farta de lutar, de bracejar no vazio. Gostaria de poder publicar toda a minha obra e voltar a viver da escrita como aconteceu durante mais de 20 anos. Enquanto espero por um editor, guardo entretanto na gaveta a tese de doutoramento, a disserta√ß√£o de mestrado, dois livros de poesia, uma cole√ß√£o de livros infanto-juvenis e um segundo romance. At√© quando? O que antes realizava com o apoio de mecenato, hoje √© praticamente imposs√≠vel.

¬†*Entrevista realizada no √Ęmbito do ‚ÄúMunda Lus√≥fono ‚Äď 2¬ļ Encontro Liter√°rio de Montemor-o-Velho‚ÄĚ


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Rui Figueiredo: "O maior desafio foi o que me levou a ter a companhia da escrita"

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ENTREVISTAS - Escritores

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Rui Figueiredo √© natural da Freguesia de Maiorca. √Č mestre em Biologia e Doutorando de Ci√™ncias Farmac√™uticas na Universidade de Coimbra. Conjugando a paix√£o pela fotografia com a beleza dos campos que o viram crescer, publicou o livro de fotografias "Baixo Mondego", assim como o livro ‚ÄúA Luz em Papel‚ÄĚ. No livro ‚ÄúA Vida Num Dia‚ÄĚ, com a chancela da Chiado Editora, escreveu pequenos textos que associa com a fotografia. √Č autor de um poema selecionado para a VI Antologia de Poesia Contempor√Ęnea ‚ÄúEntre o Sono e o Sonho‚ÄĚ, editado pela mesma editora. Por √ļltimo, publicou o livro em formato frasco, ‚ÄúDoces Palavras‚ÄĚ, da ‚ÄúCorpos Editora‚ÄĚ. Tem sido convidado a expor as suas fotografias em diversos espa√ßos, de salientar a √ļltima exposi√ß√£o na Galeria da C√Ęmara Municipal de Montemor-o-Velho.

Livros & Leituras ‚Äď Que significado tem para si o ato de escrever e a partir de que altura este se tornou ‚Äúprofissional‚ÄĚ?

Rui Figueiredo ‚Äď Gosto de escrever. Escrevo para esquecer. Em momentos tristes, gosto de escrever palavras, captar momentos, fazer trocadilhos, brincar com as palavras. E no fim rir do que escrevi. Sempre foi algo que me fascinou, a escrita, desde a aprendizagem, mas esta divers√£o foi aprofundada a partir de 2013. Quando assimilei o significado de ‚Äúa minha p√°tria √© a l√≠ngua portuguesa‚ÄĚ de Fernando Pessoa.

L&L ‚Äď √Č preciso ser um bom leitor para se ser um bom escritor?

RF ‚Äď N√£o sei‚Ķ Pois n√£o sei se algum bom escritor l√™ muito. Apenas acho a natureza humana com car√°ter de aprendizagem, e ao ler muito, vai bebendo um pouco de cada livro, tirando alguma ideia, construindo pensamento, abrindo a mente. Por isso, no final, acaba-se por ter n√£o o fruto de um pensamento, um bom escritor, mas a mistura de v√°rios pensamentos e experi√™ncias, talvez um bom comunicador.

L&L ‚Äď O seu trabalho √© vers√°til ou, pelo contr√°rio, tem um estilo muito pr√≥prio e facilmente identific√°vel pelos leitores?

RF ‚Äď Gosto de associar a fotografia √† poesia. Olho para cada fotografia e tento escrever algo sobre o que ela me transmite. Por vezes, mais tristes, outras, mais alegres. Como costumo dizer, o meu livro ‚ÄúA Vida Num Dia‚ÄĚ √© bom pois conjuga a vertente fotogr√°fica e a poesia, por isso, quem n√£o gostar de poesia pode ver as fotografias e quem n√£o gostar de fotografia pode apenas ler a poesia.

L&L ‚Äď √Āreas como, por exemplo, a ilustra√ß√£o e a m√ļsica t√™m vindo a afirmar-se na sua rela√ß√£o com a Literatura. Como encara esse facto?

RF ‚Äď As artes, sejam elas qual forem, est√£o sempre enraizadas na sociedade, em cada um de n√≥s. √Č bonito ver declama√ß√£o de poesia acompanhada com m√ļsica, mesmo obras de artes acompanhadas de pequenos poemas, ou mesmo a produ√ß√£o v√≠deo-musical de imagens, poesia e m√ļsica ao mesmo tempo. Desta forma a interioriza√ß√£o da poesia e a aproxima√ß√£o do sentimento do escritor ao leitor torna-se mais √≠ntima.

L&L ‚Äď A tradi√ß√£o oral representa, nalguns pa√≠ses da lusofonia, uma importante marca de identidade cultural. A globaliza√ß√£o e a dificuldade em editar podem ser uma amea√ßa √† perda desse patrim√≥nio?

RF ‚Äď Penso que n√£o. Hoje em dia √© muito f√°cil editar um livro, no entanto, o seu conte√ļdo, j√° ser√° outro assunto. Mas a facilidade de publica√ß√£o permite a perman√™ncia da l√≠ngua portuguesa, superando a globaliza√ß√£o. H√° muita popula√ß√£o no mundo, de certeza que se arranja sempre p√ļblico-alvo.

L&L ‚Äď A L√≠ngua Portuguesa √© uma mais-valia no panorama liter√°rio mundial?

RF ‚Äď Creio que sim. Sendo a l√≠ngua oficial de 9 pa√≠ses, e falada por quase 300 milh√Ķes de pessoas. Penso que a l√≠ngua portuguesa tem muito para ser desenvolvida e aproveitada pelos escritores.

L&L ‚Äď Quais os seus escritores lus√≥fonos favoritos e porqu√™?

RF ‚Äď Lu√≠s de Cam√Ķes, talvez por ser dos primeiros poetas, ter estudado em Coimbra e ter divulgado a l√≠ngua portuguesa durante os descobrimentos. O outro, para mim √© algo de excecional, Fernando Pessoa. O escritor com quem me identifico, talvez por n√£o ler muito dos outros, mas em Pessoa adoro a sua capacidade de mudar de personalidade, escrita simples, como eu gosto e escrevo, paradoxos, pela capacidade de adapta√ß√£o e a sua escrita sempre atual ao longo do tempo. Na sua literatura, eu revejo a minha escrita, pensamentos isolados, mas relacionados com outros, e que nem todas a pessoas t√™m a sensibilidade para conectar e perceber o pensamento.

L&L ‚Äď Ao n√≠vel da Literatura, que medidas poder√£o ser implementadas para que o universo lus√≥fono seja uma realidade mais coesa entre escritores de diferentes nacionalidades?

RF ‚Äď Deveria de haver reuni√Ķes anuais em cada um dos pa√≠ses da lusofonia de forma a haver essa intera√ß√£o entre os escritores. Para al√©m disso, as editoras deveriam de ter um papel mais ativo nesse interc√Ęmbio, na divulga√ß√£o de escritores de diferentes nacionalidades. Embora algumas editoras j√° fa√ßam a divulga√ß√£o de diversos escritores de diferentes nacionalidades, continua-se, por um lado, a ter escritores portugueses a n√£o chegar a todos os pa√≠ses da lusofonia, e muitos dos pa√≠ses da lusofonia n√£o conseguem colocar a sua literatura em Portugal, ou noutros pa√≠ses. A inclus√£o de escritores lus√≥fonos no plano nacional de leitura, mesmo nas escolas, seria uma mais-valia para essa internacionaliza√ß√£o, essa coes√£o de diversos escritores da lusofonia. E penso que o vosso s√≠tio na internet j√° √© um bom ponto de partida.

L&L ‚Äď A Internet e os recentes suportes inform√°ticos contribuem para o refor√ßo e promo√ß√£o do seu trabalho?

RF ‚Äď A escrita e a fotografia come√ßaram pelo entusiasmo de centenas de amigos e seguidores nas redes socias que me incentivaram √† publica√ß√£o de livros, tanto de poesia como de fotografia. Neste momento, j√° s√£o 4 livros publicados e novos leitores e seguidores v√£o-se aproximando e gostando do que escrevo. Por isso, a Internet e as redes sociais, quando bem usadas permitem a divulga√ß√£o do trabalho.

L&L ‚Äď Qual o maior desafio que j√° enfrentou ou que gostaria de enfrentar em termos profissionais?

RF ‚Äď O maior desafio foi o que me levou a ter a companhia da escrita. O que me levou a captar cada momento, de forma a eterniz√°-lo. O que me levou a sorrir em cada verso que escrevia. Esse foi o maior desafio.

*Entrevista realizada no √Ęmbito do ‚ÄúMunda Lus√≥fono ‚Äď 2.¬ļ Encontro Liter√°rio de Montemor-o-Velho‚ÄĚ


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