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Isabel Machado: Adoro o papel. Nunca li um único livro em suporte digital.

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Isabel Machado nasceu em Lisboa, concluiu o 12º ano nos Estados Unidos e é licenciada em Línguas e Literaturas Modernas pela Faculdade de Letras da Universidade Clássica de Lisboa. Nos anos 80, venceu o primeiro prémio nacional de um concurso europeu de dissertação em língua francesa e, em 2003, foi-lhe atribuído um prémio de jornalismo da Fundação Roche e da Liga Portuguesa Contra o Cancro por uma reportagem sobre cancro infantil. Fez trabalhos de tradução e de interpretação simultânea, lecionou Português e Francês no ensino básico e Português como língua estrangeira. Durante onze anos foi pivot e jornalista da Televisão de Macau, colaborando regularmente com publicações locais. Em Portugal, foi pivot do Canal Parlamento desde 2003 até janeiro de 2011. Em fevereiro de 2012, publicou o seu primeiro romance “Isabel I de Inglaterra e o seu Médico Português”. O seu segundo romance será publicado no início de 2014.

 

Livros & Leituras  – Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?

Isabel Machado – A escrita, como puro exercício de prazer, entrou cedo na minha vida. Antes, até, da adolescência, sob a forma de pequenos textos e poemas, um hábito que mantive pela vida fora. Profissionalmente, comecei a escrever com o jornalismo e, desde há dois anos, voltei às origens e à minha formação em Letras, um percurso quase inverso ao que fiz quando fui para o jornalismo. Libertador, de certa forma. Neste momento, dedico-me à ficção, ao romance histórico.

L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente? 

IM – É trabalho. Consciente, sim. Apurado também. A inspiração seria uma maravilha se pudéssemos carregar num botão que nos iluminasse. Mas não existe. Há dias iluminados, sem dúvida. Mas há, acima de tudo, uma luta contra a inércia, que me obriga a arrastar os passos até àquele computador, de forma rotineira, repetida, quantas vezes, miseravelmente enfadonha, extenuante. Já toda a gente ouviu falar da vertente dolorosa do ato da escrita. Isso, sim, existe. Mas o prazer também.

L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?

IM – Acho que ainda não há uma verdadeira comunidade. Digo-o com alguma pena mas sem dramatismos porque penso que é um resultado natural da própria história da CPLP e dos percursos dos países que a compõem. Sem exceção, todos os Estados membros atravessaram processos muito complicados, política, económica e socialmente. De antagonismo e costas voltadas. Depois veio a aproximação, fruto de muita vontade, devemos celebrar a CPLP como uma grande conquista, na qual eu acredito profundamente, até porque coloca a tónica na língua comum, um aspeto que me é particularmente querido. Mas há ainda muito desconhecimento uns dos outros. Por pura ignorância de todos nós, por ressentimentos também, por dificuldades de ordem prática, a distância geográfica não ajuda. Ainda funciona um pouco por blocos; o espaço de Portugal, do Brasil, de África, de Timor-Leste. Mas creio que o aprofundamento dos laços e do conhecimento mútuo se tem estreitado muito nos últimos anos.

 

L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?

IM – Acho que esta pergunta se relaciona com a anterior. Para mim, a língua é a marca cultural mais importante de um povo, de uma comunidade qualquer. Nós somos o que falamos. Uma língua, a sua forma de expressão, diz-nos muito de um povo e, juntamente com a religião, é o fator de identidade mais poderoso. Não é por acaso que os regimes repressivos, quando pretendem aniquilar um povo, começam por proibir o uso da língua. Esta pode tornar-se um foco de resistência importantíssimo. Foi assim ao longo da história, em todo o mundo. Mais recentemente, dentro da CPLP, temos o caso exemplar de Timor-Leste. O que mais nos une é esse poder único da língua, acima de quaisquer diferenças. A Literatura é a artesã da língua. É a aproximação natural, tem um espaço privilegiado no reforço dos laços.

 

L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldades encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?

IM – Para editar os trabalhos não tive, até hoje, dificuldade. Tenho trabalhado com a editora A Esfera dos Livros. A divulgação pode trazer alguns problemas porque as entrevistas se concentram no momento que antecede e que se segue ao lançamento e, meses depois, pode instalar-se um terrível silêncio, sobretudo, relativamente a obras de autores menos conhecidos ou que estão a começar.

 

L&L – Que estratégias de incentivo à leitura gostaria de ver implementadas?

IM – Tantas, nem sei se caberá neste espaço! Em primeiro lugar, a escola. Sempre a escola. Ler tem de ser um prazer para os alunos. Uma descoberta. Muitas vezes, os professores encontram jovens que resistem aos livros porque não têm esse hábito de casa, o livro representa, para eles, uma dificuldade, uma coisa maçadora. Há que simplificar a abordagem da literatura, torná-la acessível aos jovens. Simplificar é, para mim, a chave para a aprendizagem de quase tudo. Devem ser estudados mais autores contemporâneos também, a par dos clássicos, desconstruir um pouco as obras, contextualizá-las, falar da época, do autor, aproximar os alunos daquele trabalho, preparando-os para o que vão ler. Eu sei que esta abordagem cria algumas resistências por parte de académicos mas eu acredito que tem excelentes resultados para entusiasmar os jovens. A maior parte das vezes eles recusam os livros porque receiam, não são atraídos por um mundo que lhes parece inalcançável. Os jovens são curiosos, gostam de compreender o que há em torno daquela estória, sobretudo para os autores de épocas mais afastadas. Convidar autores para ir às escolas também me parece um incentivo enorme à leitura. Devia talvez recorrer-se mais à multimédia, com pequenos filmes, documentários, para uma aproximação a linguagens com que os jovens estão mais familiarizados. Depois, há muitas outras formas de aproximar os livros das pessoas: a aposta nas bibliotecas públicas é fundamental. Bibliotecas itinerantes também, para levar a literatura a populações carenciadas ou isoladas. O preço dos livros em Portugal incomoda-me. São excessivamente caros para o poder de compra médio. Mais programas sobre livros nas televisões, nas rádios, mais notícias nos jornais. A reportagem é um veículo fabuloso para divulgar novos escritores, novas obras, e que não obriga à periodicidade de um programa, que comporta muito mais custos. Inclusão de pequenas rubricas sobre livros em programas de entretenimento. Aumento de passatempos em torno da literatura ou com livros como prémio. Promoções nas grandes superfícies. Organização de pequenos eventos pelas Câmaras Municipais, convidando, por exemplo, autores da região ou que escreveram sobre algo que se relaciona com a região nas suas obras, de ficção ou outras. Ideias não faltam...

 

L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?

IM – Não tenho a certeza se isso acontece. Acho, até, que as novas tecnologias são uma ferramenta muito útil na divulgação desses encontros e na aproximação entre escritores e leitores. Podem não só levar mais pessoas a ler e a ter acesso ao que se faz como chamar pessoas aos eventos. Nada substitui a presença física e a oportunidade de falar com um autor cuja obra se admira é sempre um momento especial para os leitores.

 

L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?

IM – Eu adoro o papel. Nunca li um único livro em suporte digital, só excertos. Acho inevitável a presença cada vez maior do suporte digital mas espero que nunca deixe de haver livros em papel. O contacto direto com aquelas folhas que nos contam uma estória tem uma intimidade que o suporte digital jamais alcançará. É quase um toque de pele com pele.

 

L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?

IM – Para já e durante mais dois ou três meses, só posso aconselhar um porque é o único até agora! Trata-se do romance histórico “Isabel I de Inglaterra e o seu médico português”. Mas aconselho a todos! Em primeiro lugar porque se passa num momento crucial da história de Portugal, com a perda da independência em 1580, uma realidade que é pouco conhecida em toda a sua dimensão, e também porque dou a conhecer uma das personagens históricas mais mitificadas de sempre, a rainha Isabel I, cruzando a sua vida com a de uma personagem praticamente desconhecida em Portugal. O médico judeu, Rodrigo Lopes, um homem brilhante que fugiu à Inquisição no nosso país e acabou na corte de Isabel I. A estória põe frente a frente estas duas personagens improváveis, a rainha inglesa e o médico português, nos seus percursos distintos, ambos trágicos, até ao encontro entre os dois, quando Isabel I o nomeia seu médico pessoal na corte, onde irá desempenhar vários papéis, entre os quais o de espião contra a Espanha de Filipe II, que ocupava o trono de Lisboa. É uma história com intensidade, muita intriga, traição, ambição, esplendor, medo e tragédia, uma visão crítica da nossa história a partir de uma das cortes mais vibrantes de sempre, a da rainha Isabel I, uma mulher fascinante na sua complexidade e que teve um papel decisivo na história de Inglaterra.

 

L&L – Que projetos literários tem para o futuro?

IM – Estou em fase de revisão do meu segundo romance histórico. Sairá no início do próximo ano. É uma estória muito viva, que retrata personagens e narra episódios pouco conhecidos e penso que, surpreendentes da nossa história, com grandes figuras portuguesas e mundiais, num período determinante para a Europa e para todo o mundo. É um livro com muita paixão, conflito político, amizade, humor e tragédia. Rivalidade, preconceito, amor-ódio, redenção, contraste e caricatura enchem o romance.


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Vasco Graça Moura: O gosto pela escrita nasceu quando comecei a escrever (1942-2014)

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Vasco Graça Moura nasceu no Porto em 1942. Além de escritor ficou também conhecido como político. Apesar de se ter licenciado em Direito, dividiu o exercício da profissão com o amor que sempre dedicou à literatura. Vasco Graça Moura é essencialmente conhecido como poeta, mas destacou-se igualmente noutros géneros literários. Foi também bom ensaísta e tradutor. Os seus livros ocuparão sempre um lugar muito importante no panorama literário português. A Livros & Leituras cruzou-se com Vasco Graça Moura no Verão de 2009 na feira do livro da Vila da Marmeleira. Uma conversa impossível de esquecer e que já recordamos com saudade:

Livros & Leituras – Como escritor, escreve em vários géneros. Costuma identificar-se com todos eles?

Vasco Graça Moura – Normalmente identifico-me com aquele que estou a trabalhar. Se estiver a escrever um romance, identifico-me com esse género; se estiver a escrever um poema, identifico-me com o que estou a fazer. Não tenho propriamente um género favorito. No entanto, sou mais conhecido como poeta do que como ficcionista. Sou também mais conhecido como tradutor do que propriamente como ensaísta.

L&L ­– Como é que uma pessoa que é formada em Direito, está na política e se dedica tanto à escrita?

VGM – O hábito da escrita foi adquirido praticamente desde a altura em que comecei a escrever. Esse gosto nasceu também quando comecei a brincar com as palavras… Com a escrita é que se começa a aprender. Houve também muitas influências do meu pai que sempre insistiu para eu não dar erros de português.

L&L ­– E como é que surge também essa paixão pela tradução?

VGM – Eu não lhe posso chamar uma paixão. Há textos importantes que me marcaram e que a dada altura apareceram na minha língua, que é a língua portuguesa. E eu comecei a traduzi-los. Não é uma paixão, é uma forma de actividade literária, transformando essa actividade para o interior da nossa língua.

L&L ­– Para quem ainda não conhece Vasco Graça Moura, qual o seu livro que recomendaria?

VGM – Recomendaria – pela simplicidade e por ser um livro razoavelmente bem conseguido – a novela (lançada o ano passado) o “Pequeno-Almoço do Sargento Beauchamp”, um livro da Alêtheia.

L&L ­– Um escritor é também um leitor. Qual é que é o livro da sua vida? Se é que podemos falar apenas num livro...

VGM – Não se pode falar apenas num livro, mas diria que me marcaram profundamente as obras de Camões, Cesário Verde e Camilo Castelo Branco. Se olharmos para o século XX, temos essencialmente Jorge de Sena, Vitorino Nemésio e David Mourão-Ferreira.

L&L ­– E se forem escritores estrangeiros?

VGM – Provavelmente Stendhal. Aparece no século XIX, e soube lidar muito bem com a alma romântica.

L&L ­– Leu “Le Rouge et le Noir”?

VGM – Esse e todos os outros do Stendhal.

L&L ­– Há poucos hábitos de leitura relativamente aos jovens. Que conselho deixaria aos mais novos que lêem pouco?

VGM – Esse é um problema que passa por muitas áreas. Passa pela responsabilidade da família, pelos educadores com responsabilidade pelos programas escolares… Mas também pela comunicação social: a televisão, a rádio. 

 

 


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Isabel Ferreira: Editar um livro e divulgá-lo é sempre uma história de amor e de dor

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Isabel Ferreira é natural de Angola. É membro da Ordem do Advogados de Angola e, apesar de ter exercido advocacia, durante anos, em Luanda e no Lubango, é nas artes que se sente realizada. Em Portugal, concluiu a licenciatura em Dramaturgia na Escola Superior de Teatro e Cinema em Lisboa. Tem realizado trabalhos de investigação artística, adaptado a realidade teatral do seu país e efetuado recensões e ensaios na área da Arte Contemporânea dos artistas angolanos. Além de atriz, é também cantora, tendo editado a obra discográfica “Sons d’Alma”, cujo resultado das vendas serviu para apoiar as crianças carentes de Angola. A Literatura é outra das suas paixões. É autora das obras: “Laços de Amor” (poesia), “Caminhos Ledos” (poesia), “Nirvana” (poesia), “Fernando D’Aqui” (ficção), “A Margem das Palavras Nuas” (poesia), “O Guardador de Memórias” (ficção) e “O coelho conselheiro, matreiro e outros contos que eu te conto…” (infanto-juvenil). Entre outras, integra as seguintes obras coletivas e antologias: “Antologia da Poesia Feminina dos Palops”, “Dicionário Temático da Lusofonia”, “A Escrita das Mulheres de África e América Latina”, “Todos os Sonhos” e “O Amor tem Asas de Ouro”, antologias de poesia moderna angolana, organizada pela União de Escritores Angolanos, da qual é membro.

 

Livros & Leituras Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?

Isabel Ferreira – A escrita entrou na minha vida através da leitura. Lia muitas revistas, quando era adolescente. Na época, havia as crónicas femininas, fotonovelas, romances e narrativas como por exemplo “O Conde de Monte Cristo”. Também desfrutei de muitos poemas de Florbela Espanca e tudo isso contribuiu para começar a escrevinhar… A escrita desaguou na minha vida como um alimento espiritual, um manjar divino cuja necessidade de saboreá-lo levava-me a momentos de solidão para me evadir e colocar as minhas ideias no papel. O que cirandava em torno do meu ser, que na altura não podia exprimir, desabafava, escrevendo.

L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente? 

IF – Tenho dois momentos muitos importantes para mim enquanto artista da palavra. Um acompanha o outro, em fases bem distintas. O primeiro momento é o de inspiração/concentração. O segundo é o de refinar o processo de inspiração, de pesquisar o que já está escrito, dando-lhe maior consistência. Por exemplo: crio um personagem, dou-lhe vida, movimento e ações. Ao dar-lhe vida atribuo um tipo de personalidade e pesquiso os vários tipos de personalidade, que se adequam a este personagem e só assim dou vazão à construção do personagem, as suas atitudes inserindo-a no seu locus.

L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?

IF – Unidos em torno da Língua Portuguesa? Não creio. A meu ver há escritores lusófonos que usam a Língua Portuguesa como instrumento de trabalho, exaltam a Cultura dos respetivos países e o que escrevem circula nos seus respetivos países e nada mais…. Claro que excluo alguns escritores que pelo seu posicionamento na arena internacional, são conhecidos um pouco no espaço Lusófono, mas eu não olho para esta particularidade, como uma comunidade unida. Seriam necessárias mais ações em torno da circulação do livro para podermos falar de uma comunidade Lusófona mais unida, mas esta “ falha” não é imputável aos autores.

L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?

IF – No espaço da Lusofonia, a Literatura pode, eventualmente, ser um ponto de encontro através de seminários, de troca de ideias, círculos e sessão de autógrafos. É necessário construir pontes entre quem pensa, escreve e faz pensar…

L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldade encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?

IF – Para mim, editar um livro e divulgá-lo é sempre uma história de amor e de dor. Uma espécie de um relacionamento triangular, onde vence aquele(a) que é mais astuta e ama mais.

 

L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?

IF – Vou responder -lhe com um excerto que li recentemente numa revista literária: “A literatura é essa coisa, procura abrir aquela porta que nunca se consegue abrir, mas é também a beleza e o fascínio da literatura que dá a ilusão de que se abre qualquer coisas mas não se abra porta nenhuma”. “A literatura é esse esforço constante”, escreve António Tabucchi (1943-2012).

L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?

IF – Prefiro o livro em suporte de papel. O cheiro do papel, a textura da capa… Sublinhar, enquanto leio, é um hábito que não troco pelo suporte digital.

L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?

IF – Aconselho, o livro, O Guardador de Memórias ou o livro Fernando D´Aqui, este último prefaciado pelo ilustre e o saudoso escritor Urbano Tavares Rodrigues.

L&L – Que projetos literários tem para o futuro?

IF – Continuar a divulgar a Literatura angolana no mundo Lusófono, particularmente nas universidades do Brasil, pois há maior recetividade à leitura e a pesquisa.

 


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Carlos Peres Feio: O reforço da presença de escritores nas escolas seria um incentivo à leitura

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Carlos Peres Feio nasceu em Lisboa, em 1944. Cresceu entre a África e a Europa e formou-se em engenharia. Momentaneamente, a viver só em Leiria, sobrou tempo para iniciar a escrita de poesia, que publicou de imediato num jornal local. Seguiram-se trinta anos a escrever regularmente e a guardar os poemas. Em 2000, com a banalização da Internet e dos Blogues, começou a publicar virtualmente e a ser bem acolhido. Foi o pontapé de saída para durante a década publicar vários livros, participar em muitos outros, ilustrar álbuns e livros escolares. Também participou em exposições de artes plásticas e na Bienal de Artes de Carcavelos. A participação ativa em diversas tertúlias e atividades culturais granjeou-lhe distinções por parte do Círculo de Escritores Moçambicanos na Diáspora, Clube Desportivo do Arneiro e Junta de Freguesia de Carcavelos (Cascais). Destaca-se a sua colaboração nos encontros “Noites com Poemas”, na Biblioteca Municipal de S. Domingos de Rana (Cascais). Recentemente, realizou, com o apoio de amigos e instituições amigas – Chá da Barra Villa e Associação Luchapa – em Oeiras, um sarau poético e musical, intitulado “vida de António Feio/poesia de Carlos Feio”, uma homenagem ao seu irmão, o ator António Feio, falecido em 2010. Tem convite para novas atividades poéticas em Oeiras em Dezembro e também diversos convites para repetir o sarau “vida de António Feio/poesia de Carlos Feio” em diversos pontos do País durante 2014. Continuará ativo na Poesia, no Desenho e na Pintura.

Livros & Leituras  – Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?

Carlos Peres Feio – Passei a escrever com regularidade Poesia, quando, em 1970, estive um ano fora da família, em Leiria. Também já tinha saído do exército, iniciei uma carreira de engenheiro, com 26 anos de idade. Por sorte publicaram diversa poesia minha nesse mesmo ano de 1970 num jornal de Leiria “O Mensageiro”. A escrita e o desenho ocupam as minhas atividades, fora da minha vida familiar e particular.

L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente? 

CPF – Só escrevo quando inspirado, sem método, com intervalos irregulares, desde há 43 anos.

L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?

CPF – Acredito que há essa intensão, mas o meu testemunho é reduzido pois só desde há quatro anos passei a frequentar encontros mais alargados de escritores e normalmente com o núcleo moçambicano.

L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?

CPF – Posso sugerir o encontro informal e repetitivo (mensal, talvez) em local ou locais certos, para garantir a habituação, em que o apelo à presença dos escritores seria feito pelas diversas Associações capazes de reunir escritores oriundos de todos os espaços onde se fala o português.

L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldades encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?

CPF – Não vejo grande problema na edição, que está facilitada, mas sim na distribuição, pois os circuitos existentes parecem-me voltados para os escritores que garantem à partida vendas, sobretudo os que aparecem na televisão regularmente. A qualidade, no que diz respeito à Poesia, na minha opinião nem sempre é elevada.

L&L – Que estratégias de incentivo à leitura gostaria de ver implementadas?

CPF – O reforço da presença de escritores nas escolas, como convidados. A experiência que tenho de colaboração em vários pontos do país diz-me que há um reforço do entusiasmo por parte dos alunos, após cada aula com um escritor convidado.

L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?

CPF – Também como experiência tida, acredito que usando as novas tecnologias em complemento às ações presenciais, estas podem ser muito eficazes e não desvalorizam os encontros olhos nos olhos. A escolha do tema é fundamental para criar o verdadeiro interesse.

L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?

CPF – Prefiro o livro em papel, mas sei que há já quem tenha substituído a 100% o papel pela escrita em suporte informático. Quando a facilidade em usar os equipamentos informáticos for mais amigável, os livros em papel serão para uma minoria e como objetos preciosos.

L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?

CPF – Gostava de poder aconselhar o meu livro “podiamsermais”, 2007, edição da Junta de Freguesia de Carcavelos & Associação Cultural de Cascais, mas não o posso fazer por estarem esgotados os 1000 exemplares e sem 2ª edição á vista. Aconselho este livro, do início da minha poesia em livro, por este por mostrar uma gama de temas bastante variada.

L&L – Que projetos literários tem para o futuro?

CPF – Continuar a escrever Poesia, de forma contida, e ao sabor da inspiração, privilegiando novos temas, vir a acabar a minha primeira novela, em prosa, que tem o título provisório “o elogio da velhice portuguesa”.


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António Martins: A escrita entrou na minha vida quando escrevia as cartas ditadas pelo meu avô

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António Martins nasceu em Papízios, Carregal do Sal, em 1971 e vive em Lamego desde os vinte e quatro anos de idade. Tem os cursos de Professores do 1º Ciclo do Ensino Básico e de Professores do 2º Ciclo do Ensino Básico, variante de português-inglês e Mestrado em Ensino da Língua e da Literatura Portuguesas. Atualmente, é professor na Escola Básica 2/3 do Peso da Régua, Douro. Efetuou comunicações nas seguintes conferências: “I Colóquio Ibérico de Literatura Infantil e Interculturalidade”, Castelo Branco, 2009, “XVIII Jornadas Pedagógicas de Educação ambiental”, 2011, Idanha-a-Nova, com projeto “Eco-contos” e “III Simpósio Internacional de Língua Portuguesa”, 2013, Aveiro. Foi membro da equipa da Biblioteca do Agrupamento de Escolas de Tarouca, 2009-2013. Tem dinamizado sessões “Ler em Família”, “Hora do Conto”, “Cantinho da Leitura”, entre outras. Frequentou o “II Ciclo de Colóquios-Curso Internacionais de Literaturas Africanas de Língua Portuguesa, Literaturas de Cabo Verde, Guiné-Bissau e São Tomé e Príncipe.”, Ces, Coimbra; o Projeto “Comenius” em Dublin, Irlanda e Sliema, Malta e o Projeto Pestalozzi, em Zagreb, Croácia. Tem ainda o Curso de Pedagogia do Ensino do Holocausto para Educadores Portugueses, Escola Internacional para o Estudo do Holocausto, Jerusalém, Israel. Tem editados os livros: “No meu Rio, sonhos e poemas”, poesia, 2001, Edições APPACDM; “Quando o além me chamar, coautoria, poesia, 2002, Voz de Lamego; “Ardínia e Tedo, lenda em jogo de formas”, coautoria, 2003, Voz de Lamego; “Vozes do Douro, Tomo I e Tomo II”, coletânea de textos, 2003-2004, Garça Editores; “Páscoa revisitada”, coautoria, contos, 2005, Voz de Lamego; “Natal renascido”, coautoria, contos, 2006, Diário do Minho; “Sorrisos e máscaras de Carnaval, coautoria, contos, 2006, Voz de Lamego; “Amor razão maior”, coautoria, contos e poemas, 2007, Voz de Lamego; “Sarapicos de Natal”, coautoria, contos, 2008, Papiro Editora; “O fantástico nos contos de Mia Couto: potencialidades de leitura em alunos do Ensino Básico”, Ensaio literário, 2009, Papiro Editora e “Leituras, homenagem a Fernando Branco Marado”, contos, 2012.

Livros & Leituras  – Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?

António Martins – A escrita entrou na minha vida aos sete anos, quando escrevia as cartas ditadas pelo meu avô (que mal sabia ler e escrever) e dirigidas a um irmão que tinha na Bélgica. Eles tiveram uma discussão grande e o irmão jurou não mais voltar a Portugal. Mas meu avô escrevia-lhe cartas emocionadas de perdão e de saudade. Acho que todo o resto da minha escrita é feito de emoção. Procura transmitir os verdadeiros sentimentos humanos, personagens que procuram equilibrar-se num mundo em constante mutação. Neste momento, a escrita ocupa uma parte menor, uma vez que a vida de professor tem-se tornado mais exigente e intensa.

 

L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente? 

AM – Quando escrevo poesia sou muito intuitivo e inspirado. Quando escrevo ficção o trabalho é apurado e consciente. Tenho de pesquisar sobre a temática, sobre a personagem, sobre os espaços diegéticos. E a revisão do texto, a escolha da palavra “certa” resulta de um trabalho árduo de “corte e costura”. Por vezes, quase pareço Penélope… construo de dia e apago durante a noite.

L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?

AM – Existe uma comunidade invisível, tal qual a linha do Equador, de escritores lusófonos. Há ideias e ideais comuns e alguns organismos que eu conheço. Mas julgo que ainda há um caminho muito longo para haver uma comunidade com cariz mais formal. Pessoalmente, o que mais gosto dos escritores lusófonos, nomeadamente nos escritores africanos de Língua Portuguesa, é a sua capacidade de usar o discurso oral e convertê-lo em linguagem literária.

L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?

AM – Sempre ouvir dizer que “somos o que lemos, lemos o que somos”. Por isso, ao lermos autores da Lusofonia estamos a ser lusófonos, logo, estamos a entregar-nos à lusofonia e a integrara-nos nos espaços lusófonos. A inovação de estilo literário, a riqueza em termos de imaginário, em termos de características.

L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldades encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?

AM – A grande dificuldade prende-se com razões financeiras. As editoras continuam a cobrar muito dinheiro. Para mim, sem nome “feito” no mercado, as portas e as janelas continuam fechadas. Esta situação é tão paradigmática que o meu último livro está esgotado e não consigo arranjar apoios para uma 2ª edição.

L&L – Que estratégias de incentivo à leitura gostaria de ver implementadas?

AM – Neste campo, sou muito taxativo. A melhor estratégia para ler é ler. É necessário que cada leitor (jovem ou mais velho) tenha tempo para ler, uma vez que a leitura é, sobretudo, um ato muito solitário em que a concentração é importante. Como professor, gostaria de citar Rubem Alves: “O objetivo da educação não é ensinar coisas, porque elas já estão na Internet, estão por todos os lugares, estão nos livros. É ensinar a pensar. Criar na criança essa curiosidade. (…) criar a alegria de pensar. (…) a relação com a leitura é uma relação amorosa. (…) Quando o professor manda, já estragou. (…) Não mandando ler, mas lendo. A missão do professor não é dar as respostas prontas. (…) é provocar a inteligência, provocar o espanto, provocar a curiosidade.”

 

L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?

AM – Não, pelo contrário, as novas tecnologias potenciam e auxiliam a divulgação desses encontros. Criam redes através de diferentes plataformas digitais que se tornam uma espécie de “aperitivo” para os encontros onde se privilegia a presença física.

L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?

AM – Os livros em suporte digital são importantes no mundo atual e no mundo futuro, mas jamais têm a função de substituírem o livro em suporte papel. São duas faces da mesma moeda. Há públicos específicos para cada um deles. São, sobretudo, meios paralelos e complementares de divulgação da literatura. Pessoalmente, gosto do aroma a papel e o toque delicado quando viro uma página.

L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?

AM – Aconselho o meu ensaio literário “O fantástico nos contos de Mia Couto: potencialidades de leitura em alunos do Ensino Básico”. Este livro é uma referência no estudo da literatura africana em Língua Portuguesa. Nele efetuo uma revisão dos pressupostos teóricos do conto, género narrativo, privilegiado pelos escritores atuais da América Latina e África lusófona; aponto as linhas de força da poética do fantástico, com especial relevo para as suas funções sociais; apresentamos os eixos históricos e temáticos da literatura moçambicana inserida no contexto das literaturas africanas de/em Língua Portuguesa. Analiso, ainda, a produção contista de Mia Couto e os vetores mais importantes: a recuperação da ancestralidade, a afirmação da moçambicanidade e a procura da universalidade. Ao mesmo tempo, procura justificar a nítida opção do autor pela narrativa breve de índole fantástica. Estamos, assim, perante um fantástico que procura a subversão e a transgressão como forma de destituir um sistema social rígido e implementar uma nova ordem política, social e moral. A este propósito, problematizamos a dimensão da modalidade fantástica em Mia Couto (dimensão escatológica), bem como os procedimentos retóricos mais significativos, através dos quais o autor veicula a sua ideologia e subverte os cânones sociais: a hipérbole, a ironia e a alegoria. Verificamos, igualmente, após um trabalho no terreno com alunos e com professores do 2º Ciclo do Ensino Básico, que os contos miacoutianos possuem potencialidades de leitura neste nível de Ensino. Em suma, é um ótimo manual para professores e para estudiosos da Literatura africana em Português.

L&L – Que projetos literários tem para o futuro?

AM – Tenho muitos projetos, muito “material” no baú (contos, poemas), mas eu gostaria mesmo é de enveredar pelo romance. Escrever o meu primeiro romance. Um romance com características próximas aos do escritor açoriano João de Melo. Ir beber influências ao realismo mágico e ao fantástico moderno, onde as personagens tenham características muito próprias, ou sejam, seres que combatam o nosso sistema social pautado pela rigidez e pela crise social, económica e axiológica que grassa no país. Em termos de ensaio, gostaria de “trabalhar” autores como Ondjaki e Agualusa, ou então, o meu preferido, Luandino Vieira.


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