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Anabela Ramalho Neves: "Inspiro-me na realidade para escrever os meus livros"

ENTREVISTAS - Escritores

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Quem é?

Sou Anabela Ramalho Neves.

Sou esposa, mãe e trabalhadora. Concluí, com êxito, o ensino secundário na área de Humanidades e, alguns anos mais tarde, fiz um curso profissional de Contabilidade e Gestão. Decidida a tornar-me autossuficiente, segui cedo pelo mercado de trabalho, num percurso tudo menos uniforme. Sempre instigada pela ânsia de realização profissional e pessoal, dei por mim como operadora de caixa de supermercado. Não foi esta a profissão que escolhi, nem é a que mais me satisfaz financeiramente. No entanto, aprendi a gostar do que faço! E observo as pessoas à minha volta com uma atenção muito peculiar. Quando não estou a trabalhar, e o orçamento me permite, gosto de fazer programas dirigidos ao meu filho: passeios, cinema, parques, jardins, piqueniques...

Por reconhecer a importância da leitura desde tenra idade, procuro, sempre que possível, ler histórias infantis com o meu filho. O meu último livro, “Quero um gatinho amarelo”, é dedicado ao meu filho e também a todas as crianças que gostam de animais de estimação e aos seus familiares que lhes incutem este valor.

Como e quando começou a interessar-se por literatura? 

Desde os tempos de liceu que gosto muito de escrever. Em finais dos anos 80, tinha até um caderno onde anotava acontecimentos pessoais, uma espécie de diário. Também gostava de ler. Gostei de ler aqueles livros que eram obrigatórios na minha época de escola como, por exemplo, Os Maias, Amor de Perdição, os Contos de Eça… Também gostava daqueles livros onde havia um mistério que era desvendado, normalmente por jovens ou adolescentes, tais como Os inquéritos de Nancy, Uma aventura…

Por que motivo resolveu escrever livros?

Devido ao gosto pela escrita e ao trabalho monótono de operadora de caixa. Comecei a registar num blog as experiências que vivia com os clientes na linha de caixas. Situações muitas vezes caricatas. Era também uma forma de desabafar. Foi através do blog “A Lupa de Alguém” que surgiram os meus dois primeiros livros.

Recentemente, surgiu o meu terceiro livro. É uma história para crianças, onde o protagonista principal é o meu filho, mas podia ser qualquer outro menino. Ele começou a pedir-nos um gato de prenda de aniversário em setembro, mas nós, os pais, estávamos completamente contra. Ele foi de uma insistência tão grande e de um desejo tão puro que, pelo Natal, ele recebeu o seu tão desejado gato. Toda a história é muito simples e pura, acho que as crianças vão gostar.

Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

Gostei de todos, claro. Mas o primeiro foi o que, até agora, mais impacto teve, levou-me a conhecer estúdios de televisão e a a ser entrevistada para programas televisivos em horário nobre. Conheci todo um universo que antes desconhecia.

Em que é que se inspira para escrever um livro?

Descobri que todos os meus livros têm uma característica em comum: São histórias reais! Não uso palavras bonitas, metáforas, nem cenários imaginários com personagens de vilões e heróis. Por isso, penso que posso dizer que me inspiro na realidade.

Se não fosse escritora, o que gostava de ser? 

Apenas sou autora. Não me considero escritora, talvez seja uma aspirante a escritora.

Quais são seus autores preferidos? 

Não sou grande conhecedora de literatura. Gosto de autores nacionais: Isabel Alçada e Ana Maria Magalhães, Fernando Pessoa, Eça de Queiroz. Também gosto de autores estrageiros, recordo apenas dois que li e gostei: Nicholas Sparks e James Bowen .

Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor?

Mesmo não sendo escritora, penso que o importante para o ser é ter um dom, depois, é trabalhar para isso, e não desistir. Quando se faz por gosto, o resta vem por acréscimo. 

Para quando um novo projeto editorial?

De momento, não tenho nada em mente. Este último acabou de chegar. Ainda estou a ver como corre a até onde vai.

__________

O blog que deu origem aos primeiros livros:

http://a-lupa-de-alguem.blogs.sapo.pt/

O facebook do novo livro:

https://www.facebook.com/Queroumgatinhoamarelo.livro


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Lígia Guerra: "Escrever não é uma decisão, é um chamado de alma"

ENTREVISTAS - Escritores

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Lígia Guerra é psicóloga com especialização em Psicologia Analítica e do Trabalho. Poetisa, escritora e também comentadora no programa de televisão “Mulheres às Avessas”, na RPCTV, afiliada da Rede Globo no Paraná. Para além disso, dá variadas palestras na área comportamental e é consultora de empresas tanto no Brasil como noutros países da América do Sul.

Quem é?

Sonhadora. Poetisa. Escritora. Psicanalista. Palestrante. Alguém que sabe que palavras mudam destinos.

Como e quando começou a interessar-se por literatura?

Desde muito pequena. A leitura sempre me cativou. Comecei participando de concursos de poesia aos sete anos de idade.

Por que motivo resolveu escrever livros?

Escrever não é uma decisão, é um chamado de alma. Eu preciso escrever para me sentir viva. É mais ou menos como respirar. Os livros são a consequência dessa urgência de alma.

Qual foi a obra que mais gostou de escrever e porquê?

Mulheres às Av3ssas da editora SELF. Escrever para o público feminino é encantador, uma grande felicidade! Estimular as mulheres a quebrar os seu tabus, romper seus medos e a fortificar a sua coragem interior é maravilhoso.

Como escrevo no livro: “Por mais lindo que seja o jardim da sua casa, a estrada da vida começa do outro lado do portão. Este é o momento de fazer a travessia.” Como escritora caminho de mãos dadas com as minhas leitoras nessa travessia.

Em que é que se inspira para escrever um livro?

Nos meus sentimentos e percepções acerca do mundo. As emoções e desabafos das mulheres que me escrevem contando os seus conflitos íntimos também são uma grande fonte de inspiração. Tenho um quadro na TV, Rede Globo, voltado para mulheres há quatro anos. O meu público participa, interage, pede temas e desabafa. Ou seja, tenho uma amplo material para compreender as principais angústias do universo feminino. https://www.youtube.com/user/ligiaguerra11

Se não fosse escritor, o que gostava de ser?

Cantora. Ainda bem que sou escritora, pois não me atrevo a cantar nem no chuveiro, sou péssima. A humanidade ganhou muito com o meu silêncio (risos).

Quais são seus autores preferidos?

Oscar Wilde, Plutarco, Spinoza, Rubem Alves, Rumi, Khalil Gibran, Clarice Lispector, Saramago, Javier Negrete, o nosso querido Fernando Pessoa e muitos outros.

Que conselho daria a alguém que deseje vir a ser escritor?

Que olhe para a vida com muita gratidão, curiosidade, humildade e amor. Sem isso um autor nunca tocará a alma humana.

Para quando um novo projeto editorial?

Estou me dedicando a um novo livro, espero que para 2015 ele esteja em vossas mãos.


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Úrsula Portugal: "Livros nas salas de espera de hospitais em vez de revistas e jornais desportivos"

Avaliação: / 6
FracoBom 

ENTREVISTAS - Escritores

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Úrsula Portugal nasceu a 20 de Setembro de 1984, viveu em Pombal até aos três anos de idade, altura em que se mudou para Mortágua, com os pais e a irmã mais nova. É a estes locais que vai buscar toda a sua inspiração. É aluna da licenciatura do curso de Animação Cultural em Viseu. Escreveu os primeiros contos com oito anos e o primeiro poema com doze. Edita agora a sua primeira obra “Sopro de Luz”.

 

Livros & Leituras  – Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?

Úrsula Portugal – Eu tinha apenas oito anos quando escrevi o meu primeiro conto. Lembro-me de ser a história de um rapaz humilde, a passear na praia, tentando encontrar algo de valor para vender. Encontrou uma concha e foi sugado para o seu interior, onde conheceu e se apaixonou pela filha do rei dos mares. Infelizmente, este e outros contos, foram destruídos, poucos anos depois, num ato de rebeldia. Com doze anos escrevi o primeiro poema “O Sonho”, num acampamento de escuteiros. A partir desse momento, a escrita passou a fazer parte de mim. A definir-me, a ajudar-me, a orientar-me e alegrar-me, conforme a necessidade. É, neste momento, a minha forma de exorcizar demónios, limpar a consciência.

 

L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente? 

UP – As palavras vão surgindo. Levanto-me de noite, acordada por alguma ideia, por algum sonho, que sei ter de passar de imediato para o papel. O engraçado é a forma como a inspiração chega. Com voz própria, cheiro próprio. Qualquer guardanapo de papel serve como guardião de palavras, que vão jorrando, sem que as consiga controlar.

L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?

UP – É uma realidade com a qual ainda não tenho contato.

L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?

UP – Os livros permitem a entrada em mundos comuns. Se existe, também, o vínculo de uma língua partilhada, esses laços ficam reforçados, essas realidades mais próximas.

L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldades encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?

UP – Eu tive a sorte de encontrar uma editora que acompanha os seus autores, divulgando e orientando o seu trabalho. A maior dificuldade, penso estar na forma como a arte da escrita é encarada. Portugal não permite aos seus autores uma entrega total e exclusiva à sua paixão.

L&L – Que estratégias de incentivo à leitura gostaria de ver implementadas?

UP – Livros nas salas de espera de hospitais em vez de revistas e jornais desportivos. Um sistema de empréstimo de livros nos transportes públicos. Educação cultural desde cedo, nas escolas e em casa.

 

L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?

UP – Penso que podem ser usadas em prol dos escritores, como meio de publicitarem as suas obras, como veículo informativo e forma de “aproximar” os leitores do autor, ao torna-los contactáveis.

L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?

UP – Para mim, um livro tem de ser palpável. Ter a característica de ser movido por nós, como prolongamento do nosso movimento. O toque do papel entre os dedos, o cheiro característico de um livro aberto pela primeira vez, ou o de um livro antigo. O som das folhas de papel a roçarem entre elas. Nunca nada vai substituir essa sensação.

L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?

UP – Aconselho o “Sopro de Luz”, por ser o meu único livro. Acredito ser uma história tão próxima da realidade como a própria vida. Um exemplo de superação e reconstrução de nós próprios, quando confrontados com a dor da perda.

L&L – Que projetos literários tem para o futuro?

UP – O sonho seria o mesmo que qualquer um acalenta. O de poder viver somente da escrita. Tenho mais um romance começado, bem como um conjunto de poesias, que gostaria de ver sair da gaveta.

 


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António Bondoso: "A literatura é fundamental, apesar de não ver o seu valor reconhecido"

Avaliação: / 3
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ENTREVISTAS - Escritores

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António Bondoso nasceu em Moimenta da Beira, mas viveu em São Tomé e príncipe, até Outubro de 1974. É licenciado e Mestre em Relações Internacionais pela Universidade Lusíada do Porto e com o 12º Curso de Pós-Graduação em Direito da Comunicação pelo Instituto Jurídico de Comunicação da Faculdade de Direito da Universidade de Coimbra. Na Rádio Clube de São Tomé iniciou a sua carreira radiofónica em 1967, passando para a ex – E.N. em 1973. Nas décadas de 1980 e de 1990 foi colaborador da RTP na área do Jornalismo Desportivo. Na RDP (1975-2005) e na TDM – Rádio Macau (1994-2000) exerceu cargos de chefia e de direção. É docente colaborador na área do audiovisual no Instituto Multimédia, do Porto, desde 2009, tendo dedicado muitos anos à área da formação, nomeadamente no CFJ e na Escola Superior de Jornalismo do Porto, da qual foi fundador. Membro da Associação de Jornalistas e Homens de Letras do Porto e da Associação Portuguesa de Jornalistas de Turismo. “Em Macau por Acaso” (1999) foi o seu primeiro livro de poesia, seguindo-se “Tons Dispersos” em 2003 e “A Cidade e a Paixão – Poemas de Azul e Branco” em 2004. “Escravos do Paraíso – Vivências de S. Tomé e Príncipe”, em 2005, foi a sua primeira abordagem de “memórias” em prosa. De novo a poesia em 2008, com “...Da Beira! Alguns Poemas e uma Carta para Aquilino”. Março 2010 – “Seios Ilhéus”, poesia. Temática: S. Tomé e Príncipe. “Luís Veiga Leitão: Homem de Letras por inteiro. Teria Gostado de Ser Jornalista?” (ensaio). Edição da C.M. de Moimenta da Beira (Outubro de 2012). “O Poder e o Poema” (ex-citações de leituras e textos com algum sentido poético). Livro/ensaio sobre a relação entre o Poder e o Poema. (Dezembro de 2012). Em finalização: “Lusofonia e CPLP – Desafios na Globalização”. Baseado na Dissertação de Mestrado em Relações Internacionais e “Terra de Ninguém – A Revolta Poética da Interioridade”.

 

Livros & Leituras  – Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?

António Bondoso – Entre os dezassete e os vinte anos, em São Tomé, houve aquela fase de dar expressão e algum sentido aos pormenores que mais nos tocaram – e permaneceram – do que nos era transmitido no ensino da Literatura durante a última fase do ensino secundário. A poesia foi um caminho. Depois, foi a atividade radiofónica, com a elaboração de programas e a redação de notícias. E a profissão acabou por interromper aquele ímpeto inicial que, no entanto, ficou latente. A escrita jornalística (muito seca, muito direta, eventualmente menos elaborada pelo seu imediatismo), ao longo de 40 anos, certamente contribuiu para esse limbo – até que irrompeu de novo em finais do século XX. Os últimos anos da administração portuguesa no território de Macau foram muito marcantes. As pessoas, a História e as histórias entranharam-se, os contactos com gente e agentes da Cultura multiplicaram-se, nomeadamente, com o grande romancista Henrique de Senna Fernandes, com alguns poetas que muito me deram – como António Correia, Beatriz Basto da Silva, António Aresta e Estima de Oliveira, para além de historiadores como Celina Veiga de Oliveira. Nasceu aí o meu primeiro livro de poesia “Em Macau Por Acaso”,1999, e que teve o apoio do governo de Macau. Sem isso, nada feito. Hoje, já aposentado da RDP/RTP, a escrita ocupa um lugar primordial na minha vida – depois de ter “parido” Tons Dispersos, A Cidade e a Paixão – Poemas de Azul e Branco, Escravos do Paraíso (prosa), Da Beira…alguns Poemas e uma Carta para Aquilino, Seios Ilhéus, “ensaio” sobre Luís Veiga Leitão, também um “ensaio/livro” sobre O Poder e O Poema, e agora este “estudo” sobre a Lusofonia e a CPLP – Desafios na Globalização.  

 

L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente? 

AB – Dizia Manuel António Pina que a Poesia é um ofício difícil. Outros grandes e consagrados poetas afirmam que haverá 10% de inspiração e 90% de transpiração. Claro que a inspiração é determinante… mas, depois, há que trabalhar muito. Há projetos que amadurecem durante meses ou anos. Deixe-me contar-lhe rapidamente: – exatamente em Macau, onde, na Rádio, produzi o espaço “Palavras – para ouvir e sentir…”, tive a felicidade de conhecer e conviver com o (também) Poeta Estima de Oliveira. E reparei que ele, quando conversávamos, de vez em quando puxava da caneta e de um qualquer pedaço de papel – daquele autocolante ou até mesmo os recibos das caixas de multibanco – e tomava notas. “O que é isso Estima? – É o clique da inspiração”, dizia. E arrumava no bolso da camisa ou na carteira… até um dia! E eu comecei por aí e fui apurando a “técnica”! Paralelamente, tive a sorte de trabalhar com camaradas de uma grande sensibilidade estética, como o Hélder Fernando e o Cardoso Pinto. A transpiração vem também com muita leitura, com muito estudo, com uma grande dose de consulta aos dicionários. Fazer e refazer, sempre!

L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?

AB – Escritores há, pois nós conhecemos e lemos. Duvido é que haja um verdadeiro espírito de “comunidade”. No que me diz respeito, nunca fui contactado para coisa alguma. E tenho a certeza que o meu nome não consta de qualquer arquivo de uma qualquer instituição com esse objetivo de “união”. Mas tenho escritores amigos, quer em Portugal, quer em São Tomé ou em Macau.

L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?

AB – A literatura é fundamental, apesar de não ver o seu valor reconhecido, e é a expressão da língua comum. Mas é preciso que uns conheçam os outros. Trocando obras e opiniões sobre a escrita. E que esse conhecimento resulte das formas mais diversas, desde encontros “bilaterais” a convívios e retiros mais alargados. E que seja feito em todos os sentidos: do Brasil com África, de Timor com Portugal, de África com Macau e Goa, todos com todos. E a entidade política, que é a CPLP, deve fomentar, deve incentivar esses movimentos, sem exercer qualquer tutela que não seja essa de proporcionar e promover! E depois, há uma questão fundamental que é relacionada com o preço dos livros. Os Estados-membros devem encontrar uma forma de valorizar a Cultura, tornando-a acessível de acordo com as especificidades de cada um.

L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldades encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?

AB – O “circuito” é difícil e complexo. E se a edição é onerosa – excetuando os grandes nomes como Agualusa, Mia Couto, Manuel Alegre – a divulgação é ainda mais difícil. A abertura dos meios de comunicação social aos escritores menos conhecidos é quase impossível. Se não houver amizades, o interesse não existe! Particularmente, no que respeita às minhas edições, elas têm sido muito onerosas de forma geral, sobretudo as obras com o carimbo de edição de autor, mas encontrei agora uma maior abertura nas “Edições Esgotadas” – uma editora jovem do interior do país (Viseu) – mas que tem desenvolvido um excelente trabalho com autores menos mediáticos e não só da região. Um grupo com enorme dedicação e muito esforço que, penso, irá colher frutos num futuro próximo.

L&L – Que estratégias de incentivo à leitura gostaria de ver implementadas?

AB – O preço dos livros é fundamental mas não é decisivo. E apesar das crises com que nos confrontamos hoje – financeira, económica, política, de valores morais e éticos, de princípios humanistas – penso que o grande incentivo deve começar em casa de cada um. E se há quem não possa, de todo, adquirir um livro (será mais importante o pão do que as palavras), há muitos que – embora (ou sobretudo) com poder financeiro – preferem comprar o último grito da tecnologia. Não é que isso seja um mal em si mesmo, mas há que não rejeitar a leitura. Depois da família vem a “escola”. Tem havido um grande esforço nos últimos trinta anos, mas o Estado não deve e não pode descartar uma atenção maior. Os cortes orçamentais e a sua fórmula não justificam tudo. E há que levar os escritores e os livros às escolas. Apresentar, debater, incentivar a leitura – “ensinar a dizer” poesia! E o teatro, claro.

  

L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?

AB – Onde houver oportunidade de apresentar e promover a leitura por meio das novas tecnologias – que se faça! E se desenvolva! Não serão elas a negar os encontros dos escritores com os leitores. Mas é preciso ter em atenção que tipo de obras e que autores é que estão disponíveis nos suportes tecnológicos. Os escritores menos conhecidos terão essa oportunidade?

L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?

AB – O futuro é digital, sem dúvida. Mas volto a questionar se todos os autores – pelo menos a maioria – terão acesso a esse tipo de “mercado”. Eu prefiro ainda o papel. É uma relação de muitos anos…

L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?

AB – De todos aqueles que enumerei no início, recomendaria “Tons Dispersos” (Vega, 2003) – uma espécie de roteiro sentimental das minhas “viagens” pelo mundo da Lusofonia – e “O Poder e o Poema” (Edições Esgotadas, 2012) – um estudo muito atual sobre a relação desigual e difícil entre os poetas e a poesia, por um lado, e os diversos poderes, por outro, e no qual também a Lusofonia está muito presente.

L&L – Que projetos literários tem para o futuro?

AB – No imediato está em finalização o livro de poemas “Terra de Ninguém – A Revolta Poética da Interioridade” – depois um estudo sobre a Rádio com memórias de muitos camaradas e com um sentido de intervenção sobre o que eu penso como deve ser a rádio com gente dentro com o título “A Rádio dos Meus Amigos e os Meus Amigos da Rádio”… e lá mais para a frente um romance, igualmente lusófono, situado em Moimenta da Beira, São Tomé e Angola – sem esquecer uma rápida ligação ao Brasil.

 


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Fátima Almeida: "Escrever é um ato de reconstrução da realidade"

Avaliação: / 6
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ENTREVISTAS - Escritores

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Fátima Almeida nasceu em Vila Real de Trás-os-Montes. Viveu em Viseu, até à conclusão da licenciatura em Humanidades, pela Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa e em Coimbra. Regressou a Viseu em 2000. É mestre em Ciências da Educação (na área da Educação Especial), possui duas especializações: em Educação Especial e em Supervisão Pedagógica e Avaliação de Docentes. Foi professora de Português no 3.º ciclo e ensino secundário até 2003, altura em que integrou a Educação Especial. É Vice-Presidente da DISLEX e integra a equipa do Centro de Dislexia da Universidade Católica Portuguesa de Viseu. É autora do romance “et al.” (2012), que tem como fio condutor a Dislexia.

 

Livros & Leituras  – Como é que a escrita entrou na sua vida e que papel ocupa?

Fátima Almeida – A escrita sempre representou uma forma, durante muito tempo, inconsciente, de compensar alguma introversão. Sempre foi o melhor lugar onde poderia estar. Escrever é um ato de reconstrução (de significados) da realidade. Enquanto escrevo, aquela é a realidade (o que é a realidade?). No meu mundo ideal, apenas leria e escreveria.

L&L – Escreve por inspiração ou objeto de um trabalho apurado e consciente? 

FA – Existe um estado muito consciente de escrita, intercalado com algo a que se poderá chamar inspiração. Sou, creio, bastante reflexiva, analítica, e a escrita transforma-se num processo de construção e desconstrução de teses, de sinapses. Como se fosse o meu sofá psicanalítico, no qual procuro a compreensão do possível.

L&L – No seu entender, há uma verdadeira comunidade de escritores lusófonos, unidos em torno da Língua Portuguesa, sem fronteiras de nacionalidade?

FA – Do mundo de escritores lusófonos continuo a ter o olhar de quem lê, não tanto de quem escreve. Existem «movimentos» que se reúnem, mesmo que virtualmente, em torno da escrita lusófona. As tais partilhas. Se poderemos falar de uma verdadeira comunidade, não consigo formular uma opinião.

L&L – De que forma pode a Literatura reforçar os laços no espaço da Lusofonia?

FA – Multiplicando-se os encontros entre escritores e leitores da lusofonia.

L&L – Enquanto escritor(a), que dificuldades encontra, no que diz respeito à edição e divulgação do seu trabalho?

FA – Estou muito grata à Editora Edições Esgotadas por ter recebido muito bem as propostas que tenho apresentado. Não encontrei dificuldades quanto à edição do que tenho proposto publicar. A Editora tem feito um excelente trabalho de divulgação do meu trabalho, nomeadamente em incluir a apresentação do meu livro em vários encontros, como o “3º Encontro com Escritores da Lusofonia”.

L&L – Que estratégias de incentivo à leitura gostaria de ver implementadas?

FA – Creio que seria interessante um trabalho de informação nas escolas sobre as implicações da leitura no desenvolvimento cerebral. Existem estudos muito interessantes sobre este assunto e talvez fosse mais um contributo para a urgência de ler. As bibliotecas escolares têm desenvolvido diversos projetos, alguns deles nacionais, e uma proposta neste sentido poderia ser outro caminho para o objetivo de LER+.

 

L&L – Acha que o uso das novas tecnologias desvaloriza os encontros com escritores e outras atividades presenciais, nomeadamente, o contacto com os leitores?

FA – Creio que, no mundo de escassez de tempo, como este que temos, o uso das tecnologias é a única forma possível de se estar em muitos lados, em muitas partilhas. A forma como comunicamos está em rápida transformação, faz-se entre outras tarefas, entre várias janelas abertas do computador. Contudo, quando o encontro presencial é possível, a experiência continua a ser única.

L&L – Tem preferência pelo livro em suporte de papel ou crê que os suportes digitais são o futuro?

FA – Embora leia bastante em suporte digital, sobretudo livros científicos, tenho claramente preferência pelo livro em papel. No futuro, até por uma questão de sustentabilidade ambiental, deverá haver uma prevalência dos suportes digitais. Esse facto, contudo, poderá comprometer a perenidade da escrita: haverá algum suporte digital que não se torne obsoleto (sem possibilidade de ser lido, como as disquetes dos computadores, hoje ilegíveis) e que permita a permanência da palavra escrita por milénios, como acontece com livros que chegaram até nós de vários séculos A.C.?

L&L – Para os leitores que estiverem a pensar em ler um livro seu, pela primeira vez, qual aconselha e porquê?

FA – “et al.”, o meu primeiro, e ainda único, romance, escrito nos momentos de pausa da elaboração da minha tese de mestrado em Dislexia. Foi o questionar do outro lado daquilo que investigava. A tese de mestrado (http://repositorio.ucp.pt/bitstream/10400.14/9094/1/DISSERTA%C3%87%C3%83O.pdf) centra-se na intervenção de alunos com Dislexia por parte de professores de Educação Especial, e a questão colocada no “et al.” é «como será ter Dislexia?». Talvez o grande tema do livro seja a incompreensão das várias diferenças: ser disléxico num mundo de letras, ser mulher num mundo de homens, ser filha de uma casa vazia. Ser só num mundo de gente… só (aqui não há diferença entre nós e o outro). Creio que este livro é um contributo para se olhar para a diferença de uma outra maneira.

L&L – Que projetos literários tem para o futuro?

FA – Está, em fase de conclusão, um livro sobre avaliação de professores.

 


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Amo como ama o amor. Não conheço nenhuma outra razão para amar senão amar. Que queres que te diga, além de que te amo, se o que quero dizer - te é que te amo? (Fernando Pessoa)

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